quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Cinema - "O palhaço" - Selton Mello


Segundo longa metragem de Selton Mello, "O palhaço" é um belo exemplo da continuidade da alta qualidade de produção que o cinema brasileiro vem desenvolvendo nos últimos dez anos. Selton é um dos melhores atores de sua geração, com mais de 30 anos de carreira e mostra parte desse aprendizado na direção e na coautoria do roteiro, também assinado por Marcelo Vindicatto.
Selton investe em uma proposta completamente distinta do seu primeiro filme como diretor; "Feliz natal", onde a carga dramática não oferece espaço ao humor e a cartilha realista de John Cassavettes é seguida a risca. "O palhaço" é um filme para rir, chorar, sair do cinema com a alma renovada e com a certeza de que o caminho a seguir por Selton ainda nos brindará com boas surpresas.
A escolha certeira da forma, elenco e na condução do roteiro é sentida logo nos primeiros planos do filme. Selton fez uma grande homenagem ao circo e também a aqueles que - fora dele - nos fizeram rir e esquecer um pouco da realidade lá fora: Ferrugem, Zé Bonitinho, Moacir Franco - entre outros - são alguns dos personagens que desfilam ao longo da película. A cena deste último, interpretando o "Delegado Justo" é uma das que vão se eternizar no cinema brasileiro.
O enredo é simples; uma trupe de circo viaja pelo interior do país; em cada cidade, um acontecimento, seja cômico ou não, que desemboca nas dúvidas e inquietações dos artistas e suas opções existenciais. Uma delas é fio condutor da história; o palhaço, personagem de Selton; filho do dono do Circo (interpretado por Paulo José), ele não sabe se essa é realmente a sua vocação, ou uma velada imposição do pai. Tudo se resolve no final.
Destaque para a trilha sonora de Plínio Profeta, inspirada em instrumentos e sonoridades da música balcânica e do nordeste brasileiro.

Literatura - "Hollywood"- Charles Bukowski



Bukowski sempre foi mais reconhecido na Europa do que nos Estados Unidos - país em que seus pais emigraram quando o escritor tinha apenas dois anos. Trabalhou com os mais variados ofícios até conseguir uma vaga na Empresa dos Correios de Los Angeles - cidade em que viveu por toda vida, geralmente frequentando os becos mais sórdidos, onde conheceu os personagens que permearam toda sua obra: os alcoólatras.
Bukowski viveu, bebeu e morreu em Los Angeles. Mas escreveu livros. Quarenta e cinco no total, entre prosa e poesia. A América nunca lhe dera o devido reconhecimento, talvez por medo de se reconhecer a si própria nos textos do autor; textos que externam a condição do homem americano disperso na premissa de que o mundo se divide entre "Losers X Winners".
Ele, Bukowski, venceu. Ou não teria seus livros traduzidos para dezenas de idiomas. É um paradoxo? Pode ser.
Aos 64 anos, o escritor recebeu o convite para criar um argumento de um filme a pedidos de um diretor francês; nunca escrevera nada além de contos, romance e poesia. À princípio a ideia lhe desagrada, Bukowski detestava cinema e ainda mais a indústria hollywoodiana. Mas a grana é boa e ele aceita.
"Hollywood" foi escrito em 1989 e narra todo o périplo do autor em criar o argumento, conviver com astros do cinema e as notórias dificuldades de se produzir um filme. Está tudo lá: produtores sem dinheiro, atrizes em crise profissional, diretores suicidas, magnatas endividados e lógico, muito álcool para suportar tantos egos e "personalidades". Um prato cheio para um especialista em diálogos rápidos, irônicos, certeiros.
Um livro indispensável de Bukowski, comparado pela crítica européia à Céline, Hemingway e Henri Muller.
Trechos escolhidos: "Eu morava num conjunto de casas populares na Carlton Way, perto da Western. Tinha cinquenta e oito anos e ainda tentava ser escritor profissional e vencer na vida apenas com a máquina de escrever. Iniciara esse curioso meio de vida aos cinquenta anos. Mas não se pode viver sempre escrevendo, e havia muito espaço a preencher. Eu o preenchia com uísque, cerveja e mulheres. Acabei me enchendo da maioria das mulheres e me econcentrei no uísque e na cerveja."
"O grande momento chegou. Pus a máquina de escrever em cima da mesa, encaixei uma folha de papel e bati nas teclas. A máquina ainda funcionava. E havia bastante espaço para um cinzeiro, o rádio e a garrafa. Não deixem ninguém convecê-los de outra coisa. A vida começa aos 65".