terça-feira, 20 de setembro de 2011

Cinema - "Inverno da alma" de Debra Granik


- Mãe, será que dessa vez, você pode me ajudar?
A frase é da jovem Ree Dolly - interpretada com maestria por Jennifer Lawrence - que tenta, pela enésima ocasião, apelar aos instintos maternos de sua transloucada progenitora, mergulhada em alcool e desolação, para sair do abismo em que vivem.
"Inverno da alma" é um filme triste, desses que se deixa a sala de cinema e se acende um cigarro imaginário - no meu caso - para rever e refletir sobre as cenas de privação e de angústia vividas pela protagonista. Ela tem somente 17 anos e é forçada a cuidar dos irmãos pequenos e da mãe viciada. Seu pai - um mestre em refinar "speed", heroína + cocaína - desapareceu sem deixar rastros; o problema é que ele deve a justiça e se não aparecer ou for dado comprovadamente como morto, o Estado tomará a casa da família, único bem que lhes resta. Gosto quando o cinema americano traduz na tela a realidade de muitas famílias "americanas" de três ou quatro gerações que "não deram certo"; isso é chocar de frente contra o "american way of fife"; não são emigrantes, filhos de italianos ou romenos, são todos americanos. A película tem como cenário um pequeno povoado de Missouri, rodeado de drogas e pobreza. O pai de Ree Dolly foi visto pela última vez num vilarejo vizinho; ela precisa reunir forças para se deparar com traficantes e marginais locais, em busca do paradeiro dele; ninguém quer falar sobre o assunto. O problema é que seu teto está em jogo, a lei não pode esperar. "Inverno da alma" levou o prêmio do júri de melhor filme no festival de Sundance de 2011. Recomendo.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A volta dos vinis (10) - "Absolute Beginners"- trilha sonora original


Há 25 anos as telas de cinema ganhavam a versão de "Absolute Beginners", romance de Colin Maclnnes(1914-1976) sobre a juventude londrina dos anos 50. Dirigido por Julie Temple - mesmo diretor de "The great Rock´n Roll Swindle" com os Sex Pistols e do documentário sobre a vida de Joe Strummer do Clash, "The future is unwritten" - a película narra os primórdios da influência da revolução comportamental americana no lares ingleses de classe-média. Na década seguinte, os britânicos dariam o troco com a "Invasão" da "beatlemania" e do "Britpop" na América. Apesar da ampla cobertura midiática e das expectativas geradas por essa produção, o filme foi exibido fora da competição do Festival de Cannes de 1986, além de ser um fracasso de público. Pior do que isso, a soma dos prejuízos causados por "The Mission" e "Absolute Beginners" levou ao mega Estúdio Goldcrest à falência. Porém, há de se ver o lado bom dos acontecimentos; com o tempo, se tornou "Cult". Uma das razões para esse "status" está na sua trilha sonora. E é isso que nos interessa! Nunca vi "Absolute Beginners" em formato cd; o vinil chegou em minhas mãos no final dos anos 80 e confesso que fiz pouco caso dele; recentemente - depois de escutá-lo com atenção em uma chuvosa manhã no Humaitá - percebi que é uma "jóia", dessas que não se pode perder. O lado 1 abre com a faixa homônima do filme assinada por David Bowie - uma das "intros" preferidas do "Camaleão" do pop e sucesso radiofônico na época; Sade desliza seu timbre inconfundível na balada "Killer blow", seguida de Style Council - no auge da carreira - com "Have you ever had it blue?". Como se não bastasse, Ray Davies (the Kinks) destila o clássico "Quiet life" e para fechar o lado "A", o mestre Gil Evans nos brinda com uma orquestração à la "Bing bands" de uma tema de sua autoria, "Va Va Voom". Só por essa sequência, o disco merece ser ouvido à exaustão.
Abrindo os trabalhos do segundo lado, David Bowie ataca com "That`s motivation", uma recriação de "Absolute Begginers" com colagens musicais da broadway - ênfase dos metais já sugeridos por Gil Evans. O clima cabaret vem na faixa seguinte, da desconhecida banda inglesa Eighth Wonder, com a insinuante "Having it all". O restante do lado "B" é formado por boas canções interpretadas por nomes do britpop fadados ao esquecimento como Slim Gaillard e Jerry Dammers.
Semprei adorei listas; se tivesse que escolher o melhor lado "A" de discos de trilhas sonora de todos os tempos (a exemplo dos personagens do filme "Alta-fidelidade"), certamente "Absolute Beginners" estaria em primeiro lugar.

sábado, 10 de setembro de 2011

Cinema - "Riscado" de Gustavo Pizzi


Um dos grandes filmes brasileiros do ano, "Riscado" é um exercício cinematográfico de raríssima beleza onde a sutileza da direção se sincroniza com perfeição à interpretação "orgânica" da protagonista - e também roteirista do filme - Karine Teles. Os prêmios no festival de Gramado de melhor roteiro, direção, atriz, trilha sonora e do Júri, apenas confirmam essa sensação. Ao sair da sessão de ontem à noite, no Espaço de Cinema - em plena sexta-feira com o baixo Botafogo lotado - tive vontade de percorrer as mesas de bar em bar e dizer a todos: "Vejam esse filme!Vejam esse filme!"; faltou coragem e seis doses de dreher. Nesse mesmo dia, li no jornal o embate entre as questões que determinam nossa "sorte"; Deus x Acaso. No filme, a protagonista é uma dedicada atriz de teatro que vive de bicos para chegar ao final do mês; todo esforço é aparentemente recompensado quando surge a oportunidade de estrelar uma produção francesa. As intempéries do cotidiano da moça são soberbamente interpretadas por todo o elenco dentro de um humor franco, honesto; ri-se do que infelizmente é verossímil. A direção de Gustavo Pizzi nos faz penetrar no universo da atriz sem estar insentos da realidade, porém mergulhados em suas abstrações. Gustavo também assina o roteiro. A trilha sonora está a altura do filme, a cargo de Lucas Vasconcellos, Letícia Novaes e Iky Castilho. Imperdível.

domingo, 4 de setembro de 2011

Livros - Toninho Vaz - "Solar da Fossa"


Quem passa em frente ao Shoping Rio-Sul não pode imaginar que naquele mesmíssimo terreno, há aproximadamente 40 anos atrás, estava edificado a pensão Santa Terezinha - melhor dito, o "Solar da Fossa". O escritor Toninho Vaz recupera à memória nacional as histórias dessa pensão de 85 apartamentos situada no bairro de Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro. O que ela tinha de interessante? Segundo o jornalista Ruy Castro - também ex-morador do recinto - "nenhum outro endereço do Rio, em qualquer época, concentrou tanta gente que, um dia, atuaria de forma tão decisiva na cultura. Não que eles já fossem o que logo se tornariam. Ao contrário, estavam quase todos apenas começando - e é isso que torna a história ainda mais interessante."
Entre 1964 e 1971 o "Solar" recebeu moradores ou "agregados" como Paulo Leminski, Gal Costa, Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Itala Nandi, Cláudio Marzo, Tim Maia, Cristóvão Buarque, Paulo Coelho, Aderbal Freire Filho...e a lista é interminável! Desde cariocas cansados da opressão do entorno familiar - a atriz Betty Faria abriu mão de um amplo apartamento em Copacabana em que vivia com o pai General - até Naná Vasconcelos, emigrado de sua Pernambuco natal em busca da carreira musical na cidade maravilhosa. A conjunção aluguel barato + ambiente libertário, traçou o perfil dos moradores locais; jovens com sede de revolução.
O casarão em estilo colonial, com a apenas dois andares, formava um jardim retangular, cenário de festas, encontros e até de uma "missa leiga" realizada nos últimos dias antes da desapropriação do imóvel; nesse jardim, Caetano Veloso imortalizou o lugar nos versos de "Panis et circencis": "Mandei plantar/folhas de sonho no jardim do Solar...."
O texto de Toninho Vaz propicia uma leitura fácil, ao ritmo dos acontecimentos da época - dos festivais de música ao Ato Institucional Nº5 - e é inevitável a vontade de mergulhar nos anos 1960, e ter vivido "o sonho", que logo depois, se tranformaria no pesadelo dos "anos de chumbo" do governo Médici.
Trecho escolhido: Depoimento do repórter e ex-morador Telmo Wambier: "Houve um momento em que a coisa começou a endurecer e a Polícia finalmente apareceu no Solar. A notícia vazou antes, acho que por conta da Dona Jurema, e tivemos tempo de nos prevenir. Eu e o Jeferson enchemos uma mala de livros consideramos subversivos e enterramos no jardim do Solar. Tinha Marx, Engels, Lenin...hoje posso dizer que, sobre o melhor pensamento socialista da história da humanidade, nasceu o maior templo de consumo do Rio de Janeiro, que foi aquele shopping. São os paradoxos da vida."

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Literatura - "Hell´s Angels" - Hunter Thompson


Hunter Thompson foi o inventor do conhecido "Gonzo jornalism"; segundo ele, para desenvolver esse estilo deve-se possuir o talento de um grande jornalista, os olhos de um fotógrafo e os "c*****" de um ator - com o ímpeto de viver a ação e narrá-la. O próprio Thompson não sabia definir muito bem esse termo, cunhado por um colega de profissão, que ao tomar contato com seus textos, escreveu: "isso é totalmente gonzo!"(do francês "gonzeaux", algo como "iluminado"). Hunter Thompson passou 18 meses na companhia dos "anjos do inferno" no final dos anos 1960; o resultado está no livro "Hell´s angels", relançado em formato pocket pela editora L&PM. Não se pode classificar de "Gonzo journalism"esse texto; certamente ele está entre os exemplos do "New Jornalism" de Gay Talese e Tom Wolf, até porque o estilo Gonzo não preconiza o compromisso com a verdade. Thompson acompanha os motoqueiros nas festividades pelo dia do trabalho - data importante no calendário da gangue - e revela toda a apreensão gerada nos lugares públicos em que os "angels" se fazem notar. Ao longo da narrativa, o jornalista explica as origens do grupo- no final dos anos 1950 - e como a "Times" foi responsável pela popularidade deles; para Thompson, a sede sensacionalista dos grandes tablóides ressucitou os Hells Angels das cinzas, "mitificados" por setores da sociedade marginalizados, a partir de fatos inventados, numa época em que haviam menos de 80 motoqueiros filiados ao grupo na California. Uma coisa para os "angels" é certa; "É melhor reinar no inferno do que servir no céu"; frase de Milton em "Paraíso perdido".
Trecho escolhido: "Se a Time e a Newsweek não tivessem jamais tocado no assunto, a mídia de massa com sede em Nova York teria se apoderado dele de qualquer maneira(....)Os Hell`s angels, há muito adormecidos, receberam a exposição equivalente a dezoito anos em seis meses, e isso naturalmente lhes subiu à cabeça."