domingo, 28 de agosto de 2011

A volta dos vinis(9) - "Batman" - trilha sonora original da série de TV


Seguindo com a obsessão por vinis de trilhas sonoras originais de cinema, esbarrei com a trilha de "Batman" - a série - gravado em 1966; qual não foi a surpresa - e "santa ignorância, Batman!" - de saber que a música foi composta e orquestrada por Nelson Riddle. Já admirava o arranjador e compositor americano pelas premiadíssimas trilhas de "O grande Gatsby", "Route 66" e "Lolita" de Kubrick. Ella Fitzgerald confiava albuns inteiros aos seus arranjos e orquestrações, "Strangers in the night"- na versão imortalizada por Frank Sinatra - é assinada por ele. Ao lado de Ennio Morricone e Henry Mancini, Nelson Riddle forma a tríade de meus compositores preferidos para trilhas - sorry, injustiça com Burt Bacharach! A tétrade!
"Batman" é um tema conhecido mundialmente; seu riffe de guitarras, meio surf music, meio rockabilly, influenciou uma série de outras trilhas - segundo as más línguas, até a de "Tubarão". A linha de baixo marcadíssima, aliada as intervenções melódicas dos metais e do coro feminino fazem do tema um clássico. As faixas do disco são basicamente as variações de "Batman theme" sob diversas leituras - jazzísticas, rock and roll, latin e das "big bands"; é inegável a sensação de ser um disco gravado nos anos 1960, dada a relevância atribuída às guitarras e ao estilo tribal de bateria. Destaque para as ótimas "Gotham city" e "Batman blues", duas baladas que faziam o homem-morcego enxergar a mulher-gato de forma "diferente" - para o desespero de Robin. Nelson Riddle morreu em 1985, aos 64 anos; dez anos antes recebeu sua estrela na calçada da fama de hollywood. Aos que se depararem com esse vinil pelos sebos do Brasil, recomendo não deixar escapar!

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A volta dos vinis(8) - "Manhattan" - trilha sonora original


Para não perder o bonde sobre o êxito comercial de "Meia-noite em Paris", a Warner lançou recentemente um cd duplo com as principais trilhas dos filmes de Woody Allen. No primeiro cd, constam as canções das últimas películas do diretor nova-iorquino- "Vicky Cristina Barcelona", "Match Point", "Scoop", entre outros; no segundo disco, um apanhado de "pérolas" do jazz e da canção popular norte-americana, de filmes mais antigos; entre elas, "Rhapsody in blue", de "Manhattan"(1979). Eis que encontrei o disco da trilha de uma das obras "máximas" do gênio do Brooklyn na "mítica" galeria de antiguidades da Siqueira Campos, em Copacabana. Não perguntei pelo preço. Quando vi "Manhattan" em formato vinil corri até o balcão e a terça-feira estava ganha. Não se pode falar de "Rhapsody in blue", sem citar outro judeu genial do Brooklyn, George Gershwin.
Escrita em 1924 a pedidos do regente Paul Whiteman, a obra é a mais popular da carreira de Gershwin; quem nunca se rendeu à intensidade dramática de sua linha melódica? Ou no abrupto corte do andamento, em meio ao solo executado no piano, momentos antes do clímax da peça?Épico.Moderno.E muito original.Aos puristas da segunda década do século XX era impensável encontrar a ponte entre o jazz e a música erudita. Gershwin não os convenceu. Fez melhor, tornou-se lenda.
O vinil traz a Orquestra Filarmônica de Nova Iorque regida pelo maestro indiano Zubin Mehta (diretor da casa até 1991); "Rhapsody in blue" ocupa o lado A do disco com duração de 17 minutos; tempo que por mim duraria a eternidade. "Someone to watch over me", "Embraceable you" e outros clássicos de Gershwin figuram no lado b, com a participação do pianista americano Gary Graffman em todas as faixas.
Monumental.

Literatura - "O fim de semana" - Bernhard Schlink


Bernhard Schlink é um mestre dos enredos aparentemente simples que desembocam em tramas inventivas , com personagens realistas , originais. Como escritor sempre tenho uma sensação de "inveja criativa" ao terminar seus romances; "Como eu não pensei nessa história antes?". Foi assim com "O outro" - levado às telas de cinema com Antonio Banderas - ,"A menina e a lagartixa" e "O leitor" - esse também mereceu uma adaptação cinematográfica com Kate Winslet. Histórias que podem "escorregar" pela previsibilidade ou ancorar-se em certos arquétipos de personagens literários, ganham novo fôlego com o autor alemão.Quanto à forma, Schlink é direto sem optar por caminhos que comprometam a linearidade da narrativa. Ser claro, em muitos casos, é o mais complicado. Em "O fim de semana" o protagonista é um ex- membro da Fração do Exército Vermelho acusado de cometer quatro homicídios na alemanha dos anos 1970. Jorg é libertado ao receber o indulto após permanecer por 24 anos na prisão; solto - em seu primeiro fim de semana - é recebido na saída da penitenciária pela irmã. Ela reuniu os velhos companheiros de juventude de Jorg numa casa de campo para o esperado reencontro - sem consultá-lo se esse realmente era o seu desejo. Duas décadas se passaram e os ressentimentos, amores, frustrações, todo e qualquer resquício emocional é jorrado entre o protagonista e seus "convidados" nesse memorável fim de semana.
Trecho escolhido: "Da última vez que vira Ilse, em algum momento dos anos 1970, era uma jovem bonita, o nariz e o queixo algo pontudos, a boca um pouco rígida, a postura sempre um pouco encurvada para que seus seios grandes não chamassem muito a atenção, mas irradiava um brilho especial com sua pele clara, seus olhos azuis,seus cabelos loiros. Agora Henner já não encontrou mais aquele brilho, nem mesmo no sorriso gentil com que ela respondeu ao reencontro e ao reconhecimento. Sentiu-se constrangido com o fato de ela não ser mais aquilo que era e prometera continuar sendo."

domingo, 7 de agosto de 2011

Livros: "Under their thumb" - Bill German


Lançado há dois meses pela editora Nova Fronteira, "Under their thumb" é obrigatório para os fãs mais ardorosos dos Rolling Stones - o meu caso ; se você apenas "gosta" da banda inglesa é melhor procurar outras leituras. Bill German era mais um garoto do Brooklyn nascido nos anos 1960 fanático pelos Stones; ao perceber erros grotescos sobre o grupo na imprensa especializada e deduzir que as fontes ou os próprios jornalistas não eram muito confiáveis, ele decide criar seu próprio veículo de informação sobre os Rolling Stones, o Fanzine "Beggar`s banquet". Com o dinheiro do próprio bolso, em uma incansável rotina de procurar informação, imprimir material e registrar fotos em uma época muito longe do universo digital, Bill German pode-se considerar um herói da imprensa underground americana. O resultado foi compensador; além de criar laços de "amizade" com Ron Wood e Keith Richards, o Zine foi convertido no "Boletim oficial" do fã Clube dos Rolling Stones por todo o mundo. Até chegar a esse status, muitas pedras rolaram e essa é a história que nos interessa. Infomações preciosas que constam no livro nunca chegaram aos ouvidos da imprensa brasileira; alguém sabia que Bill Wyman esteve inúmeras vezes a ponto de ser "limado" da banda por Mick Jagger nos anos 70? Ou que as gravações na Jamaica e em outros países exóticos tinha mais a ver com a obrigação de fugir das penas fiscais do Tesouro Ingles do que propriamente identificação com a música e a cultura locais? Bill German nos conta como foi difícil para Keith Richards seguir a carreira solo - involuntária - na segunda metade da década de 80. E da facilidade com que Mick Jagger dispensa trabalhar com "amigos" em função de novos desconhecidos endinheirados dispostos a um melhor contrato. Bill German revela a fundo os bastidores da banda, principalmente na época em que a maioria dos stones fixou residência em Nova Iorque. Valioso para os fãs, dispensável aos amadores, "Under their thumb" é fruto de um honestíssimo trabalho do jornalista nova-iorquino, hoje consultor musical de vários periódicos americanos.
Trecho escolhido: "Então percebi como aquilo era estranho. Fazia seis anos desde o dia em que conheci Woody, um bobalhão de 17 anos do lado de fora da festa do Emotional Rescue. Mas agora lá estava eu nos bastidores do show de Stevie Ray Vaughan, avaliado como um confidente dos Rolling Stones - e como alguém que poderia ditar a agenda social de Ron Wood."

Literatura - "Minha fuga sem fim" - Cesare Battisti


Cesare Battisti foi condenado pela justiça italiana por quatro assassinatos ocorridos na década de 70. "Minha fuga sem fim" - editado pela Martins Fontes - relata desde os tempos de atuação terrorista até a fuga insólita para o Brasil. Filho de um comunista e criado num entorno católico, Batisti é produto de uma época em que a "Itália era um mero satélite Americano". Pasolini havia alertado sobre os perigos do "Facismo de consumo", tão nocivo quanto o Facismo como sistema político. Cesare entrou para a organização PAC -Proletariado armado pelo Comunismo - e participou de pequenas ações do grupo. Segundo sua narrativa, nunca disparou um revólver, nunca foi convencido por completo da opção pela via armada. Abandonou o grupo depois de ocorrerem os primeiros assassinatos. E nunca foi perdoado por isso. Após a detenção dos principais membros do PAC, Batisti consegue exílio na França. Lá, fixa residência e inicia a carreira de escritor policial. Trabalha como zelador no edifício em que mora, se casa e tem duas filhas. Através dos jornais recebe a informação de que foi julgado e condenado à prisão perpétua; sem provas materiais ou testemunhas, a acusação se baseia somente no que se conhece por "delação premiada"- seus ex-comparsas jogam todos os assassinatos em suas costas e conseguem a redução de pena. Chega a ser culpado por dois crimes que ocorreram ao mesmo tempo, numa distância de 500 km. A própria acusação pede aos delatores que formulem" melhor" suas versões para culpar Battisti. "Minha fuga sem fim" é um brado de defesa em que o terrorista italiano expõe sua visão dos fatos que levaram a opinião pública a condená-lo como um "monstro". E ele - como todos os seres humanos - tem o irrefutável direito de se defender.
Trecho escolhido: "Pietro Mutti forneceu aos magistrados tantas versões, constantemente contraditas por outros arrependidos,que chegaram a ameaçar retirar-lhe a proteção e mandá-lo para a cadeia junto com os ex-companheiros que ele havia denunciado. Pietro Mutti me acusou de tantas coisas que nenhum magistrado honesto,que dedicasse algum tempo para examinar suas declarações,acreditaria,nem um instante sequer,naquele fabuloso amontoado de mentiras."

sábado, 6 de agosto de 2011

Cinema - "Rio das mortes" de Fassbinder


Primeiro trabalho de Fassbinder para a TV alemã, “Rio das Mortes” narra o périplo de dois jovens de Munique em busca de recursos para uma ousada empresa; viajar até a América do Sul em busca de ouro. O tema da película foi baseada em uma antiga idéia do diretor alemão Volker Schlondorff, sobre o abismo existente entre a realidade cotidiana e o mundo imaginário dos contos e das utopias. Vale lembrar que o filme foi rodado 1970, ano em que o sonho terminou.
Os protagonistas – Marc e Gunther – trabalham em empregos informais e vivem uma entediada existência nos subúrbios de Munique; ambos possuem um mapa do Peru, onde na localidade de Rio das Mortes se encontra um tesouro escondido: lenda?Verdade? Ninguém sabe. O que interessa é acreditar em algo que os liberte de seus cotidianos regidos pela dura e hipócrita engrenagem das relações sociais.
A diva Hanna Schygulla (Lili Marleen) interpreta a namorada de Marc - um hippie pintor de paredes; ela não se conforma em estar excluída da estrepitosa missão do ser amado por terras distantes. Sua insegurança a leva – entre outras coisas –a dormir com o parceiro de Marc e até a uma tentativa mambembe de assassinato.
Rodado em 3 semanas com direção e roteiro de Fassbinder, “Rio das Mortes” é um elogio a Utopia e as tentativas de busca de outras possibilidades existenciais além da inútil e tirânica realidade.