quinta-feira, 28 de julho de 2011

Música: "God bless you, Amy"


Todo mundo já escreveu sobre a morte de Amy Winehouse; alguns textos até muito bem escritos e acho que eu não acrescentaria em nada se resolvesse também enveredar pelo assunto. Foi então que eu pensei em publicar aqui um post feito por mim em junho de 2007, para um blog de amigos barceloneses. Lembro que na época Amy estava todos os dias nas páginas dos principais jornais britânicos com um aspecto cadavérico; sua música estava em segundo plano. Eis aqui o post:

"Alguns preferem falar dos seus dentes; outros, das marcas de pico no seu pescoço e muitos procuram morbidamente pela internet seu "manual-prático-visual de auto-destruição": eu prefiro a voz, seu timbre, o ritmo, a música.
"Tears dry on their own" é um clássico com apenas 1 ano de idade. Imagino daqui a 30 anos alguém vendo esse clip e terá a mesmíssima sensação que tenho quando assisto um vídeo de Marvin Gaye & Temmy Tarrel, ou Billie Holliday e Lester Young.
Sim, vivemos em uma época de merda. Mas pelo menos é a época de Amy Winehouse.
É a maior cantora de soul surgida nas últimas quatro décadas e ela não precisará morrer para que se lembrem disso.
God bless you, Amy"

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Cinema : Série Paul Morrissey (5) - "Flesh"


Por um problema de logística – esse era o único filme que não estava a venda na FNAC Barcelona – escrevo agora o último comentário das cinco películas analisadas pela dobradinha Paul Morrisey-Andy Warhol. “Flesh” deveria ser a primeira porque de fato foi a estréia do diretor como responsável geral por tudo o que a Factory produziria no âmbito cinematográfico, mas o filme estava esgotado e agora já sei o motivo.
“Flesh” é um prato cheio para o público gay. Relutei em usar esse epíteto mas depois de 90 minutos de película é incorruptível essa sensação. O nu masculino é prioritário, as atrizes não tiram a calcinha mas é interessante constatá-lo porque no final dos anos 60, a nudez feminina era a nudez estilizada. Filmado em 1967, o filme contém os mesmos elementos e personagens que seguiriam em “Trash” e em “Heat”. Vagabundos viciados pelas ruas de Nova Iorque em busca de sexo e heroína; travestis e anônimos em busca da fugaz felicidade que o universo mediático pode oferecer. Já estamos falando de mulheres que aderem ao uso do silicone , do culto ao corpo, da idealização da beleza masculina e da “imprensa rosa” que invade os meios de comunicação de massa; tudo é superficial, frívolo, de plástico. Feito há 40 anos atrás, “Flesh” parece que foi lançado ontem. Morrisey segue com um estilo quase documental, ultra-realista e com diálogos semi improvisados. Destaque para cena em que John Dallesandro recebe sexo oral de uma stripper em uma sala com duas travestis sentadas lendo revistas; elas se incomodam e perguntam se não sentem vergonha em fazê-lo na frente deles; ele respode: “Não. Porque os anjos também fazem”. A stripper quer botar silicone “porque todo mundo bota” e a dupla travestida replica: “Olhe para as estátuas gregas. Nenhuma delas tinha o peito de vaca e eram exuberantes.” “Se uma tivesse colocado,se destacaria”, resume a go-go girl. E para terminar, afirma que prefere trabalhar o corpo do que o cérebro, porque quanto mais se aprende, mais se deprime.
Com “Flesh” encerro o ciclo sobre Paul Morrissey /Andy Warhol.
Hasta la vista.

Literatura - Noir (6) - Raymond Chandler - "O sono eterno"


Primeiro romance de Raymond Chandler, “ O sono eterno” é também a primeira aparição do mítico detetive Philip Marlowe - que ainda protagonizaria outras seis novelas do autor norte-americano. Depois de escrever contos policiais com enorme êxito para revistas pulp, Chandler decidiu enveredar por narrativas mais longas; geralmente ambientada na Califórnia dos anos 30, vários de seus romances foram levados às telas; “O sono eterno” não foi uma excessão e foi adaptado para o cinema com estrelas como Humphrey Bogart e Lauren Bacall.
Em uma Los Angeles mergulhada na depressão, Marlowe – detetive particular que trabalha “por 25 dólares diários mais despesas” – recebe a incombencia de um velho milionário: descobrir o autor das chantagens dirigidas a sua filha. Ao entrar no caso Marlowe se encontra com muito mais: homicídios, extorsão, jogo e pornografia.
Lançado em 1939, é considerado obra obrigatória para os amantes da Literatura Noir.
Trecho escolhido : “Você está morto, está dormindo o grande sono, o sono eterno, e não se perturba com coisas assim. Para você, petróleo e água são a mesma coisa que o vento e o ar. Você simplesmente dorme o sono eterno, não se importa com as circunstâncias desagradáveis da maneira como morreu ou onde seu corpo caiu. Eu agora fazia parte das circunstancias desagradáveis.”

terça-feira, 12 de julho de 2011

Cinema - "Gainsbourg" de Joann Sfar


Serge Gainsbourg foi um homem "extraordinário"; amou as mulheres que quis - as mais desejadas do seu tempo - e entrou para o hall dos grandes compositores de música popular do século XX. Há quem especule que se fosse inglês, seria tão incensado quanto Dylan ou Cohen. Realizar um filme sobre Gainsbourg é correr riscos; pode-se sublimar demais dramas menores ou minimizar passagens épicas do personagem: depende do olhar, do grau de intimidade e entendimento que se tem com o "mito". O diretor Joann Sfar acertou em não optar por uma cinebiografia linear, ao estilo de outros filmes sobre Ray Charles e Johnny Cash. Cartunista de formação, Sfar introduziu elementos de animação, criando uma atmosfera onírica, mágica, quase em tom de fábula, nos momentos em que Gainsbourg entra em conflito com o sub-consciente. E haja conflitos na alma de Serge, um homem que flertou com diversos estilos musicais - rock, reggae, jazz - sem perder a identidade dentro do que implica a "chanson francesa". Além de um belo filme, "Gainsbourg" também marca a última aparição de Lucy Gordon nas telas de cinema; impecável na interpretação de Jane Birkin, a atriz inglesa se enforcou logo após as filmagens.