segunda-feira, 27 de junho de 2011

Literatura - "Wasabi" - Alan Pauls



Até o ano de 2003 corria um chiste entre autores de língua espanhola de que Alan Pauls "não existia"; deve-se a brincadeira ao fato do escritor argentino ser tema recorrente nas conversas entre Roberto Bolaño, Enrique Villa-Matas, Fersán e ao mesmo tempo não ter livros publicados na Espanha. Quando Alan Paus ganhou o prêmio Herraldes em 2003, esse "mistério" foi prontamente resolvido pelos leitores e pela crítica européia: "ele existe!". O nome do autor portenho chegou até a mim através do filme "O passado", de Hector Babenco - adaptação cinematográfica do seu terceiro romance. Apaixonado pela película, percorri por diversos sebos atrás do livro, esgotado. Foi quando "Wasabi" caiu em minhas mãos. Publicado em 1993, a obra tem claro perfil autobiográfico já que o narrador é convidado para uma estadia numa residência de escritores em Saint Nazaire, França - fato que também ocorreu com Pauls. Acossado por um quisto nas costas, o protagonista sofre de um enigmático desfalecimento dos sentidos que duram precisamente 7 minutos; sonho, vigília, delírio ou proximidade da morte? Todos os dias ele aguarda - até com uma certa expectativa amistosa - o "apagão" interno acontecer. Enquanto o quisto se transforma em deformidade - certo ar Kafkaniano - o narrador se vê à deriva entre o amor patológico pela esposa, os problemas da tradução de seu romance para o francês e a busca incessante em encontrar um autor de vanguarda retirado do mundo literário.Considerado um dos grandes nomes da literatura argentina contemporânea, Alan Paul é um estilista à altura de Javier Marias; o vigor e a forma impecável de sua escrita são os grandes trunfos do livro.
Trecho escolhido: "Consumida por via oral(....) a pomada, no entanto, nos proporcionou uma surpresa extraordinária. Seu sabor, como o do wasabi, a mostarda japonesa, durava pouquíssimo na boca. Assim que entrava em contato com a língua, um súbito crepitar parecia convertê-la em ar, em uma espécie de inspiração ardente que atravessava o paladar e contaminava as narinas. Era como um gás. Tellas começava aplicando-a com cuidado sobre o quisto. Derramava uma pequena dose na ponta de um dedo e me dava para provar, e depois ela aplicava-se a sua.(...)Nos transformávamos em carne, carne reduzida a um estado máximo de pureza,pura carne crua."

2 comentários:

  1. Querido Márcio

    Para variar só um pouquinho: brilhante comentário.Estará em breve no minha estantepara ser devorado.
    Boas férias e divirta-se. Vou logo dizendo que você está fazendo falta. Os que ficaram não conhecem muito bem a grande arte da gargalhada.

    Para não parecer injusto vamos explicar. Não sabem fazer rir, apesar de serem divertidas e agradáveis. Fazer rir , vamos combinar, poucos sabem fazer com maestria.

    Abrax L.G.

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  2. Estimadíssimo Beaurepaire, assim eu me emociono, suas palavras iluminam não somente esse blog mas a todos que tem o privilégio de conviver com vossa pessoa!!Até a volta,parceiro!!abrax saudoso!!

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