segunda-feira, 9 de maio de 2011

Literatura - "Tanto faz" e "Abacaxi"- Reinaldo Moraes


No conservador Rio de Janeiro dos anos 50, a imprensa gostava de brincar sobre as vissicitudes do "poetinha"Vinícius de Moraes, cantarolando uma versão tolinha sobre a melodia de "Se essa rua fosse minha". Era mais ou menos assim:" se eu tivesse, se eu tivesse/muitos vícios/e esses vícios fossem todos imorais/eu me chamaria, eu me chamaria Vinicius/me chamaria Vinicius de Moraes." Corte para os libertinos cocainômanos anos 80. Ninguém cantaria uma aberração dessas - tempos modernos. Mas se houvesse alguma corrente ultra-moralista dessa época, o personagem acima manteria o sobrenome, a única troca ocorreria no nome de Vinicius por Reinaldo Moraes.
Dificíl medir qual dos dois é mais "romântico" - cada um ao seu modo.
A Companhia das letras relançou em formato pocket , os dois romances publicados pelo autor paulista nos anos 80; "Tanto faz" e "Abacaxi", respectivamente de 1981 e 1985. O narrador das novelas é Ricardo de Mello - professor extenuado de toda a burocracia e vaidade do mundilho acadêmico de São Paulo que recebe uma bolsa de um ano em Paris; na cidade-luz protagoniza uma trajetória errática na tentativa de escrever seu primeiro livro, entre porres em cafés no Quartier Latin, noites desmemoriadas ao lado de fêmeas das mais variadas ideologias & todas essas ressacas maravilhosas acompanhadas de monólogos internos diante dos espelhos de vagões do metrô. A narrativa de Reinaldo Moraes é muy muy peculiar - vale lembrar que em 1981, as sequelas "político-emocionais" dessa geração - criada numa Ditadura militar - apresentavam os primeiros sintomas.
Trecho escolhido: "Volto pra mesa e mato num gole o que resta de vodka no cálice. Justo nesse instante, quando o álcool faz sua agradável devastação no meu estômago vem a idéia maluca: virar marinheiro. Me enfiar num cargueiro em Marselha,correr mundo. Pegar gonorréias internacionais. Amar nórdicas voluptuosas e gregas clássicas. E vice-versa. Experimentar a solidão das longas travessias. Pensar em tudo. Morrer de tédio, de medo, de tesão. Provar o amor dos portos, viver a liberdade no mar. Like a floating stone. Jack London."

3 comentários:

  1. Querido Márcio

    Após ler o seu texto me veio a velha máxima de Tomaso di Lamedusa em seu glorioso livro ILGatopardo:" è preciso mudar, para que tudo continue como está".
    Forte abraço

    L.G.

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  2. Errata: Tomásio di Lampedusa e não Lamedusa como está escrito por erro de digitação

    Abrax L.G.

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