segunda-feira, 23 de maio de 2011

Cinema - "Machete" - Roberto Rodriguez


Saber que "Machete" foi originado por um "falso" trailer incluído no filme "Planeta Terror" de seu mesmo diretor, só aumentou o interesse pela película(e que película!!). Absurdamente inverossímil na sua totalidade - como uma história em quadrinhos - "Machete" acerta em várias direções; da previsibilidade canhestra do roteiro - o anti-herói chicano que sem perceber, vê o destino "conspirando" para que ele concretize a vingança contra o matador de sua família - das interpretações cínicas e despretensiosas de Lindsay Lohan, Robert de Niro, Steven Seagal e obviamente do protagonista, Danny Trejo - na vida real, primo do diretor Roberto Rodriguez com onze anos passados em penitenciárias americanas. A crítica sobre a política de emigração dos EUA é recorrente nas quase duas horas de projeção até culminar na cena final, onde um apoteótico conflito armado separa o joio do trigo. Ou seja, os maus americanos dos bons mexicanos. Blood! blood!!exploitation!

domingo, 15 de maio de 2011

"A volta dos vinis"(5) - Arrigo Barnabé - "Suspeito"



Arrigo Barnabé surgiu no final da década de 70 ao lado de nomes como Itamar Assumpção, Ná Ozzetti, Rumo, Tetê Espíndola - entre outros - num movimento musical denominado de "Vanguarda paulista". O grupo atuava fora da Indústria fonográfica oficial - mais por questões de mercado do que propriamente opcional - e o público interessado em boa música agradece: a coragem e a determinação desses artistas em bancar produções independentes , longe de realizar as tais "concessões artísticas" em nome de grandes vendagens, deixou um legado único na música popular brasileira. Compositor erudito de formação, Arrigo gravou quadro discos na década de 80 e espero comentar cada um deles aqui no blog - sem me prender à ordem cronológica.
"Suspeito" foi lançado em 1987, com participação de Tetê Espíndola e produção de Dino Vicente; apesar de abusar dos recursos de sintetizadores -tão em voga na época - o disco sobrevive como um marco pop da década de 80; da bossa de "A serpente" até à balada de "Êxtase", a música tem um pé no sinfônico, outro pé no popular - quase brega; "Você tem medo de fazer amor comigo/você tem medo de acordar com um bandido", diz a letra da faixa título. O primeiro rap brasileiro talvez esteja nesse disco; "Dedo de Deus" é falado do início ao fim, em meio de sons rodeados de samplers, teclados e bateria eletrônica. "Já deu pra sentir" compostada por Itamar Assumpção e regravada por Cássia Eller no seu disco de estréia, tem um belíssimo arranjo de cordas e violão, com a letra meticulosamente susurrada por Arrigo - bem diferente da versão de Cássia. Um artista de olho na modernidade e com os pés na modernidade. A obra de Arrigo Barnabé é uma das mais originais e inventivas da música popular brasileira.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Literatura - "Tanto faz" e "Abacaxi"- Reinaldo Moraes


No conservador Rio de Janeiro dos anos 50, a imprensa gostava de brincar sobre as vissicitudes do "poetinha"Vinícius de Moraes, cantarolando uma versão tolinha sobre a melodia de "Se essa rua fosse minha". Era mais ou menos assim:" se eu tivesse, se eu tivesse/muitos vícios/e esses vícios fossem todos imorais/eu me chamaria, eu me chamaria Vinicius/me chamaria Vinicius de Moraes." Corte para os libertinos cocainômanos anos 80. Ninguém cantaria uma aberração dessas - tempos modernos. Mas se houvesse alguma corrente ultra-moralista dessa época, o personagem acima manteria o sobrenome, a única troca ocorreria no nome de Vinicius por Reinaldo Moraes.
Dificíl medir qual dos dois é mais "romântico" - cada um ao seu modo.
A Companhia das letras relançou em formato pocket , os dois romances publicados pelo autor paulista nos anos 80; "Tanto faz" e "Abacaxi", respectivamente de 1981 e 1985. O narrador das novelas é Ricardo de Mello - professor extenuado de toda a burocracia e vaidade do mundilho acadêmico de São Paulo que recebe uma bolsa de um ano em Paris; na cidade-luz protagoniza uma trajetória errática na tentativa de escrever seu primeiro livro, entre porres em cafés no Quartier Latin, noites desmemoriadas ao lado de fêmeas das mais variadas ideologias & todas essas ressacas maravilhosas acompanhadas de monólogos internos diante dos espelhos de vagões do metrô. A narrativa de Reinaldo Moraes é muy muy peculiar - vale lembrar que em 1981, as sequelas "político-emocionais" dessa geração - criada numa Ditadura militar - apresentavam os primeiros sintomas.
Trecho escolhido: "Volto pra mesa e mato num gole o que resta de vodka no cálice. Justo nesse instante, quando o álcool faz sua agradável devastação no meu estômago vem a idéia maluca: virar marinheiro. Me enfiar num cargueiro em Marselha,correr mundo. Pegar gonorréias internacionais. Amar nórdicas voluptuosas e gregas clássicas. E vice-versa. Experimentar a solidão das longas travessias. Pensar em tudo. Morrer de tédio, de medo, de tesão. Provar o amor dos portos, viver a liberdade no mar. Like a floating stone. Jack London."

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Cinema - "Clean" de Olivier Assayas

Um drama contemporâneo respaldado com os prêmios de melhor fotografia e atriz principal no Festival de Cannes de 2004, "Clean" narra a história de Emily- uma produtora musical que perde o marido em uma overdose acidental de heroína. Ela forneceu a droga para o próprio esposo - um cantor decadente sem perspectivas no mercado. Emily passa seis meses na prisão mas para retomar a posse do filho, precisa também largar o vício e procurar um emprego. "Clean" é um filme que trata com extrema nitidez o árduo processo do ser humano cuja única solução existencial é de se "reinventar". Abandonar sonhos e velhas certezas para conseguir seu quinhão no mundo prático, na realidade objetiva das coisas. Com uma atuação soberba de Maggie Chung, o roteiro é certeiro na pontuação psicológica da personagem; ela exita, sofre, não sabe se deve amar por vocação ou desejo. Décimo-primeiro longa de Olivier Assayas - mesmo diretor de "Cold water", o filme traz uma belíssima atuação de Nick Nolte, em seu primeiro grande papel numa produção francesa.