segunda-feira, 11 de abril de 2011

Literatura - "Anjos da desolação" - Jack Kerouac



Jack Kerouac passou 63 dias - no verão de 1956 - como vigia de incêndios no Desolation Park, a dois mil metros do nível do mar, no Estado de Washington. O maior nome da geração beat já havia publicado "The town and the city" no início da década sem repercussão midiática; então, "Anjos da desolação" se trata do autor de "On the road" alguns meses antes de virar ícone de toda uma geração; no ano seguinte, "On the road" seria publicado e Kerouac se tornaria uma lenda.
Só por esse fato, o livro já merece ser lido.
Isolado nas montanhas, longe do alcool, das drogas e de companhias femininas, Kerouac se põe a refletir sobre a existência; a minha, a sua e a de todos nós. O ritmo do texto soa como os solos de Charlie Parker, Dexter Gordon e Sonny Rollins; be bop puro do inconsciente, da irremediável sensação rimbaudiana do poeta como "roubador de fogo que responde pela humanidade"; Truman Capote gostava de dizer que Kerouac não escrevia mas "datilografava"; pois é para muito poucos "datilografar" a alma, com a precisão de quem vê aquilo que os outros sentem e temem enxergar.
Na segunda parte do livro, Kerouac segue sua trilha pelo México, Tânger, França e Londres, para retornar à tão amada América.

Trecho escolhido : "É bem fácil entender que como artista eu preciso da solidão e de uma filosofia do estilo "não fazer nada" que me permita sonhar o dia inteiro e trabalhar capítulos de delírios esquecidos que emergem anos mais tarde como uma história - Nesse sentido é impossível, já que é impossível que todo mundo seja artista, recomendar a minha maneira de viver como uma filosofia adequada para outras pessoas - Nesse sentido sou um excêntrico, como Rembrandt - Rembrandt pintava os burgueses ocupados depois do almoço, mas à meia-noite enquanto todos dormiam renovados para acordar no dia seguinte, o velho Rembrandt estava de pé no estúdio acrescentando leves toques de escuridão na tela deles - Os burgueses não esperavam que Rembrandt fosse nada além de um artista e assim não batiam na porta à meia-noite para perguntar: "Por que você vive assim?Por que você passa a noite sozinho? Com o que você está sonhando? Então eles não esperavam que Rembrandt se virasse e dissesse: "Vocês devem viver como eu, na filosofia da solidão, não existe outro jeito."

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