quarta-feira, 20 de abril de 2011

Literatura - "Guerra dos bastardos" - Ana Paula Maia


Ana Paula Maia é uma das grandes autoras contemporâneas da literatura brasileira; "Guerra dos Bastardos" - lançado pela editora Língua Geral em 2007 - confirma essa afirmação. A novela poderia se passar num subúrbio de Kosovo, num bairro periférico de Marselha ou em qualquer região onde as misérias - moral e humana - se vêem espelhadas nos traços de seus habitantes. A autora situa geograficamente a trama por uma única vez: Brasil e Argentina são citados nas primeiras páginas - o que só fortalece a universalidade do tema/história. Os personagens falam por si mesmos; músicos endividados, atores pornôs - onde inclui-se a prática do pompoarismo - , traficantes e produtores de cinema mergulhados no consumo de pó. Narrado majoritariamente em terceira pessoa, com pequenos trechos descritos na primeira, "Guerra dos bastardos" não é para espíritos pouco afeitos à realidade de mundos aparentemente distantes de nós mas que estão visíveis ao nosso lado. A autora esse ano encerrou a "Trilogia dos brutos", com a publicação de "Carvão animal" pela editora record. Eu não perco.

Trecho escolhido:" "Espero que morra engasgado, vira-lata desgraçado", murmura Pablo e não o cachorro. Apesar de vivermos num mundo cão eles ainda não sabem falar.
(.....) "Onde há morte, sempre há vida especulativa ao redor"
(.....) "Nós amamos apenas aqueles que resistem", diz Gina". "Os demais, nós toleramos".

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Literatura - "Anjos da desolação" - Jack Kerouac



Jack Kerouac passou 63 dias - no verão de 1956 - como vigia de incêndios no Desolation Park, a dois mil metros do nível do mar, no Estado de Washington. O maior nome da geração beat já havia publicado "The town and the city" no início da década sem repercussão midiática; então, "Anjos da desolação" se trata do autor de "On the road" alguns meses antes de virar ícone de toda uma geração; no ano seguinte, "On the road" seria publicado e Kerouac se tornaria uma lenda.
Só por esse fato, o livro já merece ser lido.
Isolado nas montanhas, longe do alcool, das drogas e de companhias femininas, Kerouac se põe a refletir sobre a existência; a minha, a sua e a de todos nós. O ritmo do texto soa como os solos de Charlie Parker, Dexter Gordon e Sonny Rollins; be bop puro do inconsciente, da irremediável sensação rimbaudiana do poeta como "roubador de fogo que responde pela humanidade"; Truman Capote gostava de dizer que Kerouac não escrevia mas "datilografava"; pois é para muito poucos "datilografar" a alma, com a precisão de quem vê aquilo que os outros sentem e temem enxergar.
Na segunda parte do livro, Kerouac segue sua trilha pelo México, Tânger, França e Londres, para retornar à tão amada América.

Trecho escolhido : "É bem fácil entender que como artista eu preciso da solidão e de uma filosofia do estilo "não fazer nada" que me permita sonhar o dia inteiro e trabalhar capítulos de delírios esquecidos que emergem anos mais tarde como uma história - Nesse sentido é impossível, já que é impossível que todo mundo seja artista, recomendar a minha maneira de viver como uma filosofia adequada para outras pessoas - Nesse sentido sou um excêntrico, como Rembrandt - Rembrandt pintava os burgueses ocupados depois do almoço, mas à meia-noite enquanto todos dormiam renovados para acordar no dia seguinte, o velho Rembrandt estava de pé no estúdio acrescentando leves toques de escuridão na tela deles - Os burgueses não esperavam que Rembrandt fosse nada além de um artista e assim não batiam na porta à meia-noite para perguntar: "Por que você vive assim?Por que você passa a noite sozinho? Com o que você está sonhando? Então eles não esperavam que Rembrandt se virasse e dissesse: "Vocês devem viver como eu, na filosofia da solidão, não existe outro jeito."