quarta-feira, 9 de março de 2011

Literatura - "Vício inerente" - Thomas Pynchon


É a primeira vez que faço a resenha de um livro sem terminá-lo. Há dois motivos para isso: o primeiro; o medo "ancestral"de se chegar na última página e acabar o romance ; o segundo - inveja, muita inveja "criativa" desse que é considerado um dos maiores escritores da virada do século: Thomas Pynchon.
"Vício inerente"é a oitava obra do autor americano; uma narrativa "lisérgica" ambientada na califórnia dos anos 70. O protagonista - um detetive "chapado" com grandes laços afetivos na comunidade hippie e nos bast fonds locais - se vê mergulhado em um caso onde se mistura especulação imobiliária, grupos racistas, traficantes, ex-músicos adictos, mulheres à beira de colapsos mentais, dentistas mafiosos, groupies zen budistas, e claro - o alvo inicial da investigação - um "figurão" de Los Angeles desaparecido. Tudo isso embalado ao melhor rock and roll e surf music da época.
Pynchon consegue manter o fôlego alucinado da narrativa sem perder o ritmo ao longo de 460 paginas; muitas vezes o leitor pode se perder no meio da centena de referências cinematográficas, musicais, televisivas e literárias citadas por Pynchon. O autor não abre mão desse recurso para situar o perfil psicológico-cultural dos personagens. O grau de inventividade na descrição de determinadas ações - que invariavelmente não vão se revelar determinantes na resolução do caso - beira a genialidade. Um dos grandes mestre da literatura mundial

Trecho escolhido: "De volta à sua casa, Doc ficou um tempo olhando uma pintura em veludo de uma das famílias mexicanas que montavam as suas barraquinhas de fim de semana ao longo dos bulevares que atravessavam a planície verde onde as pessoas ainda andavam a cavalo entre Gordita e a estrada. Saindo das vans para as calmas primeiras horas da manhã vinham Crucificações e Santas Ceias da largura de sofás, motoqueiros foras da lei sobre Harleys elaboradamente detalhadas, super-heróis durões com uniformes das Forças Especiais carregando M16s e por aí vai. Este quadro de Doc mostrava uma praia do sul da California que nunca existiu - palmeiras, moças de biquíni, pranchas, essa coisarada toda. Ele pensava nele como uma janela por onde olhar quando não dava conta de olhar pela de vidro do tipo tradicional do cômodo ao lado.Às vezes nas sombras a paisagem se iluminava, normalmente quando ele estava puxando fumo, como se tivessem mexido no botão da contraste da criação só o suficiente para tudo ficar com uma aura, um contorno radiante, e prometer que a noite estava a ponto de se tornar épica, de alguma maneira.

4 comentários:

  1. Márcio

    Fico muito feliz por você ter muito bem dimecionado toda riqueza linguística e narrativa social que este samurai da literatura contemporânea nos brinda com uma imersão lúdico farseca pouco vista nos dias de hoje. O humor tão pouco presente na vida e na literatura é a marca de um homem que não tem medo de des aparecer e deixar que seus livros falem por si.
    Um grande abraço

    Fernando Andrade

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  2. Estimado Fernando,foi você que me apesentou Pynchon!!e suas resenhas no cura-bula estão "afiadíssimas"!Salve Pynchon!!

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  3. Querido Marcio

    Vendo-o rindo e divertindo-se lendo o "Vício Inerente" você parecia estar vendo o "Monty Pynchon" em seus grandes momentos.

    Márcio Menezes, o homem , o mito , a lenda.

    Parabéns meu rapaz. Excelente a resenha.

    Do amigo
    Luiz Guilherme de Beaurepaire

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  4. a "lenda" aqui é você, mestre Beaurepaire!!

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