quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

"A volta dos vinis(3)" - Lucas Santanna - "Collector's choice"


Luiz Valente é o nome responsável pela "Vynil land Records"; Dj e produtor, ele resolveu bancar seu próprio selo dedicado aos discos de acetato. Desde a fundação da empreitada - no final de 2008 - já foram lançados 13 nomes da música brasileira contemporânea; entre eles, Lucas Santanna.
Nascido em Salvador, Lucas iniciou a carreira como instrumentista ao lado de ícones como Caetano Veloso e Gilberto Gil. Como compositor teve canções registradas nas vozes de Marisa Monte e Fernanda Abreu, até partir para carreira solo em 2000, ao lançar o elogiadíssimo "Eletro ben Dodô" - incluído na lista dos 10 melhores cds independentes na lista do "New York Times".
"Collector's choice" é a copilação de 11 faixas selecionadas entre os quatro cds que compõe a discografia de Lucas; além do já citado "Eletro ben Dodô", figuram "Parada do Lucas"(2003), "3 sessions in a greenhouse"(2006) e do último trabalho, "Sem nostalgia" (2009).
O resultado é uma "pérola" de um dos mais talentosos compositores de sua geração; destaques para o hit "De coletivo ou de metrô" - obrigatória em qualquer festividade carnavalesca contemporânea e a comovente balada "Nightime in the backyard".
"Collector's choice" não é imprecindível somente nas estantes dos amantes do vinil, mas para todos os apreciadoes de boa música brasileira.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Cinema - "Wanda" de Barbara Loden



Dica do meu amigo poeta Fernando de Andrade, "Wanda" é uma obra-prima do cinema independente americano. Dirigido e protagonizado por Barbara Loden, o filme recebeu o "status" de "Cult" apesar de haver conquistado o prêmio da crítica no Festival de Veneza de 1970 e ser exibido em Cannes no ano seguinte. Com uma atmosfera asfixiante, planos longos e perturbador desde o primeiro minuto, a película narra a estória de Wanda; casada, com dois filhos e absolutamente entendiada com a vida de dona-de-casa na Pensilvânia, ela resolve pedir divórcio; o juiz lhe pergunta: "Você vai abandonar suas crianças, por quê?"; ela é direta: "Eles vão ficar melhor com meu ex-marido". Inicia-se então o périplo de uma mulher desorientada em busca de si mesma; o que ela encontra é sexo casual, violência, crime e desolação. O curioso é que Barbara Londen era uma reconhecida atriz da Broadway, casada com Elias Kazan - um dos mais renomados diretores americanos de todos os tempos - e amplamente "inserida" nos padrões hollywoodianos de se fazer cinema. "Wanda" rompe com toda essa estética, reverencia o estilo de John Cassavetes e nos proporciona uma obra original, com linguagem própria. Imperdível.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Literatura - "Bravura indômita" - Charles Portis


Sempre tive preconceito com o gênero "Western"; nas "sessões da tarde" no final dos anos 70, John Wayne me entendiava com a rapidez e a precisão de seu gatilho em exterminar índios excluídos e criminosos brancos desajustados. Glauber Rocha foi o primeiro a me chamar atenção para os filmes de John Ford e sua contribuição estética à sétima arte; foi o próprio baiano que disse que "Deus e o Diabo na terra do sol" era uma tentativa de mesclar essa estética com a realidade brasileira - no caso, o sertão.
Outro nome importante para a perda desse preconceito me foi apresentado recentemente: Charles Portis. Nascido no Arkansas em 1933 e incorporado aos fuzileiros navais na Guerra da Coreia vinte anos depois, Charles abandonou a carreira militar para se dedicar a literatura e ao jornalismo.
É autor de apenas seis novelas; entre elas dois clássicos "westerns" instantâneos que foram levados às telas do cinema:"Norwood"(1966) e "True Grit"(1968). Esse último - traduzido no Brasil como "Bravura Indômita" e filmado em 1969 - ganhou uma nova versão realizada pelos irmãos Coen em 2010. O enredo é batido e infalível; a vingança da filha pelo assassinato do pai; a narrativa é simplória; em primeira pessoa construída pela própria menina de 14 anos. Os personagens; um agente federal com um passado delitivo, um detetive mais interessado na recompensa do que fazer justiça e toda a fauna do velho-oeste mergulhada em coldres com calibres 45. São raríssimos os casos das adaptações cinematográficas serem melhores que os livros. Ainda não vi o filme e - com todo o respeito pela obra dos irmão Coen - não creio que essa seja uma das exceções.

Trecho escolhido: " Eu disse: "Se você se recusar a ir, eu vou ter que atirar em você".
Ele continuou o que estava fazendo e disse: "Ah? Então é melhor engatilhar a sua arma".
Eu tinha esquecido disso. Puxei o cão pra trás com ambos os polegares.
"Até o fim, até travar", Disse Chaney.
"Eu sei como fazer", disse eu. Quando engatilhou eu disse, "Não vai vir
comigo?"
"Acho que não", disse ele. (......)
Apontei o revólver na direção da barriga dele e o derrubei com um tiro.
Ele segurava o ferimento com as duas mãos. Disse, "Não achava que você
fosse fazer isso comigo".
Eu disse, "O que acha agora?"

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Cinema - "Biutiful"



Javier Barden parece se reinventar em cada filme que protagoniza; sem dúvida nenhuma, pode-se considerá-lo um dos maiores atores de língua espanhola de todos os tempos. Os prêmios que vem acumulando ao longo de mais de 20 anos de carreira atestam essa afirmação. "Biutiful" é o feliz encontro do ator com Alejandro Gonzáles Iñarritu, um dos mais renomados diretores mexicanos das últimas décadas; filmes como "Amores perros", "21 gramos" e "Babel" constam em qualquer lista das melhores películas realizadas nesse início de século.
"Biutiful" é um drama mergulhado na crítica realidade européia surpreendida pela crise financeira de 2008; desemprego, drogas, emigrantes ilegais e miséria moral e econômica desfilam pelas duas horas e dez de projeção.
A Barcelona que Iñarritu nos oferece é a extrema oposta da qual Woody Allen nos apresentou em "Vicky Cristina Barcelona". Se o cineasta americano buscou locações em cartões postais, o mexicano preferiu o Clot, bairro cêntrico mas rodeado de pobreza e deselação. O filme já seria trágico sem o drama pessoal do personagem de Javier Barden: chineses que trabalham como escravos, senegaleses nas filas de deportação e famílias desestruturadas pela miséria e a adição.
Não é recomedável ver o filme num domigo à noite - corre-se o risco de começar a semana "pra baixo", diante de tanto infortúnio. Mas recomendo para todos os dias seguintes e também todas as outras obras de Alejandro Gonzáles Iñarritu.