sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Cinema - "Roleta chinesa" - Fassbinder




Filme realizado para a TV em 1976, “A roleta chinesa” também poderia ser chamada de “Adultério à alemã”; Fassbinder desfila toda a hipocrisia da classe burguesa ao retratar um matrimonio que coincide com seus respectivos amantes na velha mansão de veraneio da família. O encontro foi secretamente planejado pela filha do casal . A inusitada situação não provocaria danos morais aos envolvidos se a própria filha não resolvesse estar presente.
Durante a estadia, a jovem propõe a todos jogar roleta chinesa – uma espécie de jogo da verdade, em que um grupo tenta adivinhar com perguntas de caráter simbólico, a identidade de uma pessoa escolhida. Então se desenrola toda a tensão emocional camuflada no falso moralismo burguês e na necessidade de se manter as convenções sociais. Com uma fotografia estilizada e a câmera com movimentos deslizantes que desnudam cada personagem, a película confirma a maturidade de Fassbinder como diretor. Destaque para o diálogo entre o marido e o amante da esposa; “Você a ama?” – pergunta o rapaz - “Estou acostumado a ela..” – responde o esposo. “ Estar acostumado a uma pessoa e viver com ela, também não é amor?” – Conclui o amante.
Sábio Fassbinder.

Literatura Noir (6) - Raymond Chandler "Amor e morte em Poodle Springs"




Raymond Chandler não viveu para terminar sua ultima novela: “Amor e morte em Poodle Springs” permaneceu na gaveta de seus herdeiros por 30 anos, até ser lançada em 1989. A obra foi acabada pelo celebrado autor Robert Parker, um dos grandes estudiosos, admiradores e discípulos de Chandler. Escrita em 1959, o livro não possui a mesma grandiosidade de “O sono eterno” e “O longo adeus” – esse, considerado um dos maiores romances da literatura americana do século XX.
É a última aparição do mítico detetive Philip Marlowe, agora devidamente casado com uma milionária californiana e instalado em uma cinematográfica mansão nos arredores de Hollywood. O conflito interno de Marlowe por ter como esposa uma mulher mergulhada em dinheiro acompanha toda a narrativa. Entre diálogos simples e diretos, ela insiste em convencê-lo a deixar seu escritório e o detetive – cínico como de costume – rejeita a idéia em nome do orgulho e da opção profissional que fez. Em uma tarde, Marlowe recebe a visita de Lipshultz - um proprietário de casas noturnas metido em jogo e outras ações delitivas; alguém lhe deve 100 mil dólares e Marlowe é encarregado de saber o paradeiro do indivíduo. Ao longo da procura, o detetive se depara com dois cadáveres, mulheres semi-desnudas à beira de ataques de nervos e seguranças fiéis ao passado de ex-boxeadores. Ao melhor estilo Chandler.
Trecho escolhido: “Os bêbados são criaturas frágeis. Precisam ser levados como um copo muito cheio; é só entornar para qualquer lado, e eles derramam tudo. Eu os conhecia. Passara a metade da vida conversando com bêbados em bares como aquele".

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Cinema - "O palhaço" - Selton Mello


Segundo longa metragem de Selton Mello, "O palhaço" é um belo exemplo da continuidade da alta qualidade de produção que o cinema brasileiro vem desenvolvendo nos últimos dez anos. Selton é um dos melhores atores de sua geração, com mais de 30 anos de carreira e mostra parte desse aprendizado na direção e na coautoria do roteiro, também assinado por Marcelo Vindicatto.
Selton investe em uma proposta completamente distinta do seu primeiro filme como diretor; "Feliz natal", onde a carga dramática não oferece espaço ao humor e a cartilha realista de John Cassavettes é seguida a risca. "O palhaço" é um filme para rir, chorar, sair do cinema com a alma renovada e com a certeza de que o caminho a seguir por Selton ainda nos brindará com boas surpresas.
A escolha certeira da forma, elenco e na condução do roteiro é sentida logo nos primeiros planos do filme. Selton fez uma grande homenagem ao circo e também a aqueles que - fora dele - nos fizeram rir e esquecer um pouco da realidade lá fora: Ferrugem, Zé Bonitinho, Moacir Franco - entre outros - são alguns dos personagens que desfilam ao longo da película. A cena deste último, interpretando o "Delegado Justo" é uma das que vão se eternizar no cinema brasileiro.
O enredo é simples; uma trupe de circo viaja pelo interior do país; em cada cidade, um acontecimento, seja cômico ou não, que desemboca nas dúvidas e inquietações dos artistas e suas opções existenciais. Uma delas é fio condutor da história; o palhaço, personagem de Selton; filho do dono do Circo (interpretado por Paulo José), ele não sabe se essa é realmente a sua vocação, ou uma velada imposição do pai. Tudo se resolve no final.
Destaque para a trilha sonora de Plínio Profeta, inspirada em instrumentos e sonoridades da música balcânica e do nordeste brasileiro.

Literatura - "Hollywood"- Charles Bukowski



Bukowski sempre foi mais reconhecido na Europa do que nos Estados Unidos - país em que seus pais emigraram quando o escritor tinha apenas dois anos. Trabalhou com os mais variados ofícios até conseguir uma vaga na Empresa dos Correios de Los Angeles - cidade em que viveu por toda vida, geralmente frequentando os becos mais sórdidos, onde conheceu os personagens que permearam toda sua obra: os alcoólatras.
Bukowski viveu, bebeu e morreu em Los Angeles. Mas escreveu livros. Quarenta e cinco no total, entre prosa e poesia. A América nunca lhe dera o devido reconhecimento, talvez por medo de se reconhecer a si própria nos textos do autor; textos que externam a condição do homem americano disperso na premissa de que o mundo se divide entre "Losers X Winners".
Ele, Bukowski, venceu. Ou não teria seus livros traduzidos para dezenas de idiomas. É um paradoxo? Pode ser.
Aos 64 anos, o escritor recebeu o convite para criar um argumento de um filme a pedidos de um diretor francês; nunca escrevera nada além de contos, romance e poesia. À princípio a ideia lhe desagrada, Bukowski detestava cinema e ainda mais a indústria hollywoodiana. Mas a grana é boa e ele aceita.
"Hollywood" foi escrito em 1989 e narra todo o périplo do autor em criar o argumento, conviver com astros do cinema e as notórias dificuldades de se produzir um filme. Está tudo lá: produtores sem dinheiro, atrizes em crise profissional, diretores suicidas, magnatas endividados e lógico, muito álcool para suportar tantos egos e "personalidades". Um prato cheio para um especialista em diálogos rápidos, irônicos, certeiros.
Um livro indispensável de Bukowski, comparado pela crítica européia à Céline, Hemingway e Henri Muller.
Trechos escolhidos: "Eu morava num conjunto de casas populares na Carlton Way, perto da Western. Tinha cinquenta e oito anos e ainda tentava ser escritor profissional e vencer na vida apenas com a máquina de escrever. Iniciara esse curioso meio de vida aos cinquenta anos. Mas não se pode viver sempre escrevendo, e havia muito espaço a preencher. Eu o preenchia com uísque, cerveja e mulheres. Acabei me enchendo da maioria das mulheres e me econcentrei no uísque e na cerveja."
"O grande momento chegou. Pus a máquina de escrever em cima da mesa, encaixei uma folha de papel e bati nas teclas. A máquina ainda funcionava. E havia bastante espaço para um cinzeiro, o rádio e a garrafa. Não deixem ninguém convecê-los de outra coisa. A vida começa aos 65".

sábado, 15 de outubro de 2011

Festival do Rio : Cinema - "Funkytown" de Daniel Roby


"Montreal Limelight" foi um famoso nightclub canadense da década de 1970; uma espécie de Studio 54 dos vizinhos americanos. Alain Montpeitit era um ator e celebridade símbolo da era "disco" local - pode-se encontrar alguns vídeos do astro no youtube. O diretor Daniel Roby baseou-se na errática e trágica trajetória de Montpetit para realizar uma radiografia dessa geração regada a cocaína, Donna Summer e sexo desenfreado a poquíssimos anos da descoberta da AIDS.
"Funkytown" estreou no festival do Rio com a sala lotada em plena sexta-feira à tarde. É um seríssimo candidato a blockbuster dada a variada gama de personagens em seus dramas pessoais: o dono de uma boate sem preceitos éticos para obter o máximo de lucro possível, as vaidades dos profissionais do meio televisivo em busca de riqueza e glamour, a luta cotidiana para manter um casamento de pé entre assédios de beldades e ofertas de droga barata e a negação de "sair do armário" no seio de uma família conservadora italiana. Tudo isso bem costurado em um roteiro que segue os dogmas do cinemão hollywoodiano; apresentação de personagens/primeiros conflitos/evolução dos clonflitos/clímax/ e final.
Segundo longa-metragem do diretor - nascido em Quebec em 1970 - , "Funkytown" não chega a surpreender, mas recomendo pela segurança da direção em um filme tecnicamente correto.

domingo, 9 de outubro de 2011

A volta dos vinis (11) - "Viver e morrer em Los Angeles" - trilha sonora


Wang Chu é o nome do duo formado pelos músicos Hues Jack e Feldman Nick; na ativa até hoje, após alguns períodos de tormenta, a dupla londrina teve seu auge comercial na metade dos anos 1980. A trilha sonora do filme "Viver e morrer em L.A" explica esse êxito.
O interesse em falar sobre o disco está na síntese da sonoridade oitentista apresentada pela dupla: não conheço nenhum álbum da época tão paradigmático quanto às propostas estéticas "pop" dos anos oitenta. Está tudo lá; o uso "indiscriminado" dos sintetizadores "cifrados" por Prince, bateria eletrônica à revelia, a batida seca e frenética da caixa e a incorruptível e errônea sensação de salto à modernidade. Pode soar datado mas não deixa de ser emblemático.
O lado A abre com "To Live And Die in L.A", sucesso radiofônico do disco, que ganhou o 41º lugar na Parada da Billboard. "Wake up, stop dreaming" é outro exemplo de pop bem sucedido da época, com um poderoso refrão impregnado de teclados "clean" - duas faixas menos inspiradas fecham esse lado. O segundo lado - melhor - é todo instrumental e consegue dar o tom "noir modernoso" que paira sobre o filme; uma espécie de thriller onde agentes secretos da CIA e o Departamento de polícia de Los Angeles competem entre si no quesito "corrupção" - Willen Defoe protagoniza a película.
Bela trilha para pegar o carro de manhã e curtir um sábado ensolarado de praia, com a certeza absoluta de estar em 1986; quais são as vantagens de estar em 1986? Bom, isso mereceria um outro post.

domingo, 2 de outubro de 2011

Cinema - "Medianeras" de Gustavo Taretto


Primeiro longa-metragem do diretor porteño Gustavo Taretto, "Medianeras" é uma moderna e engenhosa comédia de desencontros, encontros e tarja-preta. O filme começa com uma narração em off do protagonista sobre as relações entre paisagem arquitetônica de Buenos Aires e a paisagem "interna" de seus habitantes - humor tipicamente argentino. Oscar Wilde dizia que o "pessimista é um otimista bem informado" e nossos vizinhos hermanos sempre foram muito céticos em relação à condição humana. Se no final do século XX - antes do advento da internet - filósofos franceses já nos alertavam sobre o excesso de individualismo do homem contemporâneo, imagine no ano de 2010; sexo, comida, trabalho e diversão - você pode garantir tudo isso sem sair de seu apartamento. E solidão, muita solidão.
Martín é um web-designer que foi abandonado pela namorada; não tem amigos, passa doze horas diárias em frente ao computador; a única recordação da amada é um cachorrinho que ela deixou pro rapaz cuidar. São os únicos momentos que Martin desce de seu apartamento pra ver a luz do dia. Pilar é vizinha dele. Sofre de fobia de altura e terminou uma longa relação depois de inutilmente lutar contra o "superego" do namorado. Seu trabalho consiste em projetar vitrines de moda feminina; passa mais tempo entre manequins do que entre seres humanos. A incomunicabilidade enfrentada por Martin e Pilar em relação aos seus semelhantes é um traço comum de suas personalidades - e exatamente essa característica os unirá. Roteiro muito bem costurado, atuações despretensiosas e uma fotografia que ilustra com primor tensão/estética urbana. Imperdível.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Cinema - "Inverno da alma" de Debra Granik


- Mãe, será que dessa vez, você pode me ajudar?
A frase é da jovem Ree Dolly - interpretada com maestria por Jennifer Lawrence - que tenta, pela enésima ocasião, apelar aos instintos maternos de sua transloucada progenitora, mergulhada em alcool e desolação, para sair do abismo em que vivem.
"Inverno da alma" é um filme triste, desses que se deixa a sala de cinema e se acende um cigarro imaginário - no meu caso - para rever e refletir sobre as cenas de privação e de angústia vividas pela protagonista. Ela tem somente 17 anos e é forçada a cuidar dos irmãos pequenos e da mãe viciada. Seu pai - um mestre em refinar "speed", heroína + cocaína - desapareceu sem deixar rastros; o problema é que ele deve a justiça e se não aparecer ou for dado comprovadamente como morto, o Estado tomará a casa da família, único bem que lhes resta. Gosto quando o cinema americano traduz na tela a realidade de muitas famílias "americanas" de três ou quatro gerações que "não deram certo"; isso é chocar de frente contra o "american way of fife"; não são emigrantes, filhos de italianos ou romenos, são todos americanos. A película tem como cenário um pequeno povoado de Missouri, rodeado de drogas e pobreza. O pai de Ree Dolly foi visto pela última vez num vilarejo vizinho; ela precisa reunir forças para se deparar com traficantes e marginais locais, em busca do paradeiro dele; ninguém quer falar sobre o assunto. O problema é que seu teto está em jogo, a lei não pode esperar. "Inverno da alma" levou o prêmio do júri de melhor filme no festival de Sundance de 2011. Recomendo.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A volta dos vinis (10) - "Absolute Beginners"- trilha sonora original


Há 25 anos as telas de cinema ganhavam a versão de "Absolute Beginners", romance de Colin Maclnnes(1914-1976) sobre a juventude londrina dos anos 50. Dirigido por Julie Temple - mesmo diretor de "The great Rock´n Roll Swindle" com os Sex Pistols e do documentário sobre a vida de Joe Strummer do Clash, "The future is unwritten" - a película narra os primórdios da influência da revolução comportamental americana no lares ingleses de classe-média. Na década seguinte, os britânicos dariam o troco com a "Invasão" da "beatlemania" e do "Britpop" na América. Apesar da ampla cobertura midiática e das expectativas geradas por essa produção, o filme foi exibido fora da competição do Festival de Cannes de 1986, além de ser um fracasso de público. Pior do que isso, a soma dos prejuízos causados por "The Mission" e "Absolute Beginners" levou ao mega Estúdio Goldcrest à falência. Porém, há de se ver o lado bom dos acontecimentos; com o tempo, se tornou "Cult". Uma das razões para esse "status" está na sua trilha sonora. E é isso que nos interessa! Nunca vi "Absolute Beginners" em formato cd; o vinil chegou em minhas mãos no final dos anos 80 e confesso que fiz pouco caso dele; recentemente - depois de escutá-lo com atenção em uma chuvosa manhã no Humaitá - percebi que é uma "jóia", dessas que não se pode perder. O lado 1 abre com a faixa homônima do filme assinada por David Bowie - uma das "intros" preferidas do "Camaleão" do pop e sucesso radiofônico na época; Sade desliza seu timbre inconfundível na balada "Killer blow", seguida de Style Council - no auge da carreira - com "Have you ever had it blue?". Como se não bastasse, Ray Davies (the Kinks) destila o clássico "Quiet life" e para fechar o lado "A", o mestre Gil Evans nos brinda com uma orquestração à la "Bing bands" de uma tema de sua autoria, "Va Va Voom". Só por essa sequência, o disco merece ser ouvido à exaustão.
Abrindo os trabalhos do segundo lado, David Bowie ataca com "That`s motivation", uma recriação de "Absolute Begginers" com colagens musicais da broadway - ênfase dos metais já sugeridos por Gil Evans. O clima cabaret vem na faixa seguinte, da desconhecida banda inglesa Eighth Wonder, com a insinuante "Having it all". O restante do lado "B" é formado por boas canções interpretadas por nomes do britpop fadados ao esquecimento como Slim Gaillard e Jerry Dammers.
Semprei adorei listas; se tivesse que escolher o melhor lado "A" de discos de trilhas sonora de todos os tempos (a exemplo dos personagens do filme "Alta-fidelidade"), certamente "Absolute Beginners" estaria em primeiro lugar.

sábado, 10 de setembro de 2011

Cinema - "Riscado" de Gustavo Pizzi


Um dos grandes filmes brasileiros do ano, "Riscado" é um exercício cinematográfico de raríssima beleza onde a sutileza da direção se sincroniza com perfeição à interpretação "orgânica" da protagonista - e também roteirista do filme - Karine Teles. Os prêmios no festival de Gramado de melhor roteiro, direção, atriz, trilha sonora e do Júri, apenas confirmam essa sensação. Ao sair da sessão de ontem à noite, no Espaço de Cinema - em plena sexta-feira com o baixo Botafogo lotado - tive vontade de percorrer as mesas de bar em bar e dizer a todos: "Vejam esse filme!Vejam esse filme!"; faltou coragem e seis doses de dreher. Nesse mesmo dia, li no jornal o embate entre as questões que determinam nossa "sorte"; Deus x Acaso. No filme, a protagonista é uma dedicada atriz de teatro que vive de bicos para chegar ao final do mês; todo esforço é aparentemente recompensado quando surge a oportunidade de estrelar uma produção francesa. As intempéries do cotidiano da moça são soberbamente interpretadas por todo o elenco dentro de um humor franco, honesto; ri-se do que infelizmente é verossímil. A direção de Gustavo Pizzi nos faz penetrar no universo da atriz sem estar insentos da realidade, porém mergulhados em suas abstrações. Gustavo também assina o roteiro. A trilha sonora está a altura do filme, a cargo de Lucas Vasconcellos, Letícia Novaes e Iky Castilho. Imperdível.

domingo, 4 de setembro de 2011

Livros - Toninho Vaz - "Solar da Fossa"


Quem passa em frente ao Shoping Rio-Sul não pode imaginar que naquele mesmíssimo terreno, há aproximadamente 40 anos atrás, estava edificado a pensão Santa Terezinha - melhor dito, o "Solar da Fossa". O escritor Toninho Vaz recupera à memória nacional as histórias dessa pensão de 85 apartamentos situada no bairro de Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro. O que ela tinha de interessante? Segundo o jornalista Ruy Castro - também ex-morador do recinto - "nenhum outro endereço do Rio, em qualquer época, concentrou tanta gente que, um dia, atuaria de forma tão decisiva na cultura. Não que eles já fossem o que logo se tornariam. Ao contrário, estavam quase todos apenas começando - e é isso que torna a história ainda mais interessante."
Entre 1964 e 1971 o "Solar" recebeu moradores ou "agregados" como Paulo Leminski, Gal Costa, Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Itala Nandi, Cláudio Marzo, Tim Maia, Cristóvão Buarque, Paulo Coelho, Aderbal Freire Filho...e a lista é interminável! Desde cariocas cansados da opressão do entorno familiar - a atriz Betty Faria abriu mão de um amplo apartamento em Copacabana em que vivia com o pai General - até Naná Vasconcelos, emigrado de sua Pernambuco natal em busca da carreira musical na cidade maravilhosa. A conjunção aluguel barato + ambiente libertário, traçou o perfil dos moradores locais; jovens com sede de revolução.
O casarão em estilo colonial, com a apenas dois andares, formava um jardim retangular, cenário de festas, encontros e até de uma "missa leiga" realizada nos últimos dias antes da desapropriação do imóvel; nesse jardim, Caetano Veloso imortalizou o lugar nos versos de "Panis et circencis": "Mandei plantar/folhas de sonho no jardim do Solar...."
O texto de Toninho Vaz propicia uma leitura fácil, ao ritmo dos acontecimentos da época - dos festivais de música ao Ato Institucional Nº5 - e é inevitável a vontade de mergulhar nos anos 1960, e ter vivido "o sonho", que logo depois, se tranformaria no pesadelo dos "anos de chumbo" do governo Médici.
Trecho escolhido: Depoimento do repórter e ex-morador Telmo Wambier: "Houve um momento em que a coisa começou a endurecer e a Polícia finalmente apareceu no Solar. A notícia vazou antes, acho que por conta da Dona Jurema, e tivemos tempo de nos prevenir. Eu e o Jeferson enchemos uma mala de livros consideramos subversivos e enterramos no jardim do Solar. Tinha Marx, Engels, Lenin...hoje posso dizer que, sobre o melhor pensamento socialista da história da humanidade, nasceu o maior templo de consumo do Rio de Janeiro, que foi aquele shopping. São os paradoxos da vida."

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Literatura - "Hell´s Angels" - Hunter Thompson


Hunter Thompson foi o inventor do conhecido "Gonzo jornalism"; segundo ele, para desenvolver esse estilo deve-se possuir o talento de um grande jornalista, os olhos de um fotógrafo e os "c*****" de um ator - com o ímpeto de viver a ação e narrá-la. O próprio Thompson não sabia definir muito bem esse termo, cunhado por um colega de profissão, que ao tomar contato com seus textos, escreveu: "isso é totalmente gonzo!"(do francês "gonzeaux", algo como "iluminado"). Hunter Thompson passou 18 meses na companhia dos "anjos do inferno" no final dos anos 1960; o resultado está no livro "Hell´s angels", relançado em formato pocket pela editora L&PM. Não se pode classificar de "Gonzo journalism"esse texto; certamente ele está entre os exemplos do "New Jornalism" de Gay Talese e Tom Wolf, até porque o estilo Gonzo não preconiza o compromisso com a verdade. Thompson acompanha os motoqueiros nas festividades pelo dia do trabalho - data importante no calendário da gangue - e revela toda a apreensão gerada nos lugares públicos em que os "angels" se fazem notar. Ao longo da narrativa, o jornalista explica as origens do grupo- no final dos anos 1950 - e como a "Times" foi responsável pela popularidade deles; para Thompson, a sede sensacionalista dos grandes tablóides ressucitou os Hells Angels das cinzas, "mitificados" por setores da sociedade marginalizados, a partir de fatos inventados, numa época em que haviam menos de 80 motoqueiros filiados ao grupo na California. Uma coisa para os "angels" é certa; "É melhor reinar no inferno do que servir no céu"; frase de Milton em "Paraíso perdido".
Trecho escolhido: "Se a Time e a Newsweek não tivessem jamais tocado no assunto, a mídia de massa com sede em Nova York teria se apoderado dele de qualquer maneira(....)Os Hell`s angels, há muito adormecidos, receberam a exposição equivalente a dezoito anos em seis meses, e isso naturalmente lhes subiu à cabeça."

domingo, 28 de agosto de 2011

A volta dos vinis(9) - "Batman" - trilha sonora original da série de TV


Seguindo com a obsessão por vinis de trilhas sonoras originais de cinema, esbarrei com a trilha de "Batman" - a série - gravado em 1966; qual não foi a surpresa - e "santa ignorância, Batman!" - de saber que a música foi composta e orquestrada por Nelson Riddle. Já admirava o arranjador e compositor americano pelas premiadíssimas trilhas de "O grande Gatsby", "Route 66" e "Lolita" de Kubrick. Ella Fitzgerald confiava albuns inteiros aos seus arranjos e orquestrações, "Strangers in the night"- na versão imortalizada por Frank Sinatra - é assinada por ele. Ao lado de Ennio Morricone e Henry Mancini, Nelson Riddle forma a tríade de meus compositores preferidos para trilhas - sorry, injustiça com Burt Bacharach! A tétrade!
"Batman" é um tema conhecido mundialmente; seu riffe de guitarras, meio surf music, meio rockabilly, influenciou uma série de outras trilhas - segundo as más línguas, até a de "Tubarão". A linha de baixo marcadíssima, aliada as intervenções melódicas dos metais e do coro feminino fazem do tema um clássico. As faixas do disco são basicamente as variações de "Batman theme" sob diversas leituras - jazzísticas, rock and roll, latin e das "big bands"; é inegável a sensação de ser um disco gravado nos anos 1960, dada a relevância atribuída às guitarras e ao estilo tribal de bateria. Destaque para as ótimas "Gotham city" e "Batman blues", duas baladas que faziam o homem-morcego enxergar a mulher-gato de forma "diferente" - para o desespero de Robin. Nelson Riddle morreu em 1985, aos 64 anos; dez anos antes recebeu sua estrela na calçada da fama de hollywood. Aos que se depararem com esse vinil pelos sebos do Brasil, recomendo não deixar escapar!

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A volta dos vinis(8) - "Manhattan" - trilha sonora original


Para não perder o bonde sobre o êxito comercial de "Meia-noite em Paris", a Warner lançou recentemente um cd duplo com as principais trilhas dos filmes de Woody Allen. No primeiro cd, constam as canções das últimas películas do diretor nova-iorquino- "Vicky Cristina Barcelona", "Match Point", "Scoop", entre outros; no segundo disco, um apanhado de "pérolas" do jazz e da canção popular norte-americana, de filmes mais antigos; entre elas, "Rhapsody in blue", de "Manhattan"(1979). Eis que encontrei o disco da trilha de uma das obras "máximas" do gênio do Brooklyn na "mítica" galeria de antiguidades da Siqueira Campos, em Copacabana. Não perguntei pelo preço. Quando vi "Manhattan" em formato vinil corri até o balcão e a terça-feira estava ganha. Não se pode falar de "Rhapsody in blue", sem citar outro judeu genial do Brooklyn, George Gershwin.
Escrita em 1924 a pedidos do regente Paul Whiteman, a obra é a mais popular da carreira de Gershwin; quem nunca se rendeu à intensidade dramática de sua linha melódica? Ou no abrupto corte do andamento, em meio ao solo executado no piano, momentos antes do clímax da peça?Épico.Moderno.E muito original.Aos puristas da segunda década do século XX era impensável encontrar a ponte entre o jazz e a música erudita. Gershwin não os convenceu. Fez melhor, tornou-se lenda.
O vinil traz a Orquestra Filarmônica de Nova Iorque regida pelo maestro indiano Zubin Mehta (diretor da casa até 1991); "Rhapsody in blue" ocupa o lado A do disco com duração de 17 minutos; tempo que por mim duraria a eternidade. "Someone to watch over me", "Embraceable you" e outros clássicos de Gershwin figuram no lado b, com a participação do pianista americano Gary Graffman em todas as faixas.
Monumental.

Literatura - "O fim de semana" - Bernhard Schlink


Bernhard Schlink é um mestre dos enredos aparentemente simples que desembocam em tramas inventivas , com personagens realistas , originais. Como escritor sempre tenho uma sensação de "inveja criativa" ao terminar seus romances; "Como eu não pensei nessa história antes?". Foi assim com "O outro" - levado às telas de cinema com Antonio Banderas - ,"A menina e a lagartixa" e "O leitor" - esse também mereceu uma adaptação cinematográfica com Kate Winslet. Histórias que podem "escorregar" pela previsibilidade ou ancorar-se em certos arquétipos de personagens literários, ganham novo fôlego com o autor alemão.Quanto à forma, Schlink é direto sem optar por caminhos que comprometam a linearidade da narrativa. Ser claro, em muitos casos, é o mais complicado. Em "O fim de semana" o protagonista é um ex- membro da Fração do Exército Vermelho acusado de cometer quatro homicídios na alemanha dos anos 1970. Jorg é libertado ao receber o indulto após permanecer por 24 anos na prisão; solto - em seu primeiro fim de semana - é recebido na saída da penitenciária pela irmã. Ela reuniu os velhos companheiros de juventude de Jorg numa casa de campo para o esperado reencontro - sem consultá-lo se esse realmente era o seu desejo. Duas décadas se passaram e os ressentimentos, amores, frustrações, todo e qualquer resquício emocional é jorrado entre o protagonista e seus "convidados" nesse memorável fim de semana.
Trecho escolhido: "Da última vez que vira Ilse, em algum momento dos anos 1970, era uma jovem bonita, o nariz e o queixo algo pontudos, a boca um pouco rígida, a postura sempre um pouco encurvada para que seus seios grandes não chamassem muito a atenção, mas irradiava um brilho especial com sua pele clara, seus olhos azuis,seus cabelos loiros. Agora Henner já não encontrou mais aquele brilho, nem mesmo no sorriso gentil com que ela respondeu ao reencontro e ao reconhecimento. Sentiu-se constrangido com o fato de ela não ser mais aquilo que era e prometera continuar sendo."

domingo, 7 de agosto de 2011

Livros: "Under their thumb" - Bill German


Lançado há dois meses pela editora Nova Fronteira, "Under their thumb" é obrigatório para os fãs mais ardorosos dos Rolling Stones - o meu caso ; se você apenas "gosta" da banda inglesa é melhor procurar outras leituras. Bill German era mais um garoto do Brooklyn nascido nos anos 1960 fanático pelos Stones; ao perceber erros grotescos sobre o grupo na imprensa especializada e deduzir que as fontes ou os próprios jornalistas não eram muito confiáveis, ele decide criar seu próprio veículo de informação sobre os Rolling Stones, o Fanzine "Beggar`s banquet". Com o dinheiro do próprio bolso, em uma incansável rotina de procurar informação, imprimir material e registrar fotos em uma época muito longe do universo digital, Bill German pode-se considerar um herói da imprensa underground americana. O resultado foi compensador; além de criar laços de "amizade" com Ron Wood e Keith Richards, o Zine foi convertido no "Boletim oficial" do fã Clube dos Rolling Stones por todo o mundo. Até chegar a esse status, muitas pedras rolaram e essa é a história que nos interessa. Infomações preciosas que constam no livro nunca chegaram aos ouvidos da imprensa brasileira; alguém sabia que Bill Wyman esteve inúmeras vezes a ponto de ser "limado" da banda por Mick Jagger nos anos 70? Ou que as gravações na Jamaica e em outros países exóticos tinha mais a ver com a obrigação de fugir das penas fiscais do Tesouro Ingles do que propriamente identificação com a música e a cultura locais? Bill German nos conta como foi difícil para Keith Richards seguir a carreira solo - involuntária - na segunda metade da década de 80. E da facilidade com que Mick Jagger dispensa trabalhar com "amigos" em função de novos desconhecidos endinheirados dispostos a um melhor contrato. Bill German revela a fundo os bastidores da banda, principalmente na época em que a maioria dos stones fixou residência em Nova Iorque. Valioso para os fãs, dispensável aos amadores, "Under their thumb" é fruto de um honestíssimo trabalho do jornalista nova-iorquino, hoje consultor musical de vários periódicos americanos.
Trecho escolhido: "Então percebi como aquilo era estranho. Fazia seis anos desde o dia em que conheci Woody, um bobalhão de 17 anos do lado de fora da festa do Emotional Rescue. Mas agora lá estava eu nos bastidores do show de Stevie Ray Vaughan, avaliado como um confidente dos Rolling Stones - e como alguém que poderia ditar a agenda social de Ron Wood."

Literatura - "Minha fuga sem fim" - Cesare Battisti


Cesare Battisti foi condenado pela justiça italiana por quatro assassinatos ocorridos na década de 70. "Minha fuga sem fim" - editado pela Martins Fontes - relata desde os tempos de atuação terrorista até a fuga insólita para o Brasil. Filho de um comunista e criado num entorno católico, Batisti é produto de uma época em que a "Itália era um mero satélite Americano". Pasolini havia alertado sobre os perigos do "Facismo de consumo", tão nocivo quanto o Facismo como sistema político. Cesare entrou para a organização PAC -Proletariado armado pelo Comunismo - e participou de pequenas ações do grupo. Segundo sua narrativa, nunca disparou um revólver, nunca foi convencido por completo da opção pela via armada. Abandonou o grupo depois de ocorrerem os primeiros assassinatos. E nunca foi perdoado por isso. Após a detenção dos principais membros do PAC, Batisti consegue exílio na França. Lá, fixa residência e inicia a carreira de escritor policial. Trabalha como zelador no edifício em que mora, se casa e tem duas filhas. Através dos jornais recebe a informação de que foi julgado e condenado à prisão perpétua; sem provas materiais ou testemunhas, a acusação se baseia somente no que se conhece por "delação premiada"- seus ex-comparsas jogam todos os assassinatos em suas costas e conseguem a redução de pena. Chega a ser culpado por dois crimes que ocorreram ao mesmo tempo, numa distância de 500 km. A própria acusação pede aos delatores que formulem" melhor" suas versões para culpar Battisti. "Minha fuga sem fim" é um brado de defesa em que o terrorista italiano expõe sua visão dos fatos que levaram a opinião pública a condená-lo como um "monstro". E ele - como todos os seres humanos - tem o irrefutável direito de se defender.
Trecho escolhido: "Pietro Mutti forneceu aos magistrados tantas versões, constantemente contraditas por outros arrependidos,que chegaram a ameaçar retirar-lhe a proteção e mandá-lo para a cadeia junto com os ex-companheiros que ele havia denunciado. Pietro Mutti me acusou de tantas coisas que nenhum magistrado honesto,que dedicasse algum tempo para examinar suas declarações,acreditaria,nem um instante sequer,naquele fabuloso amontoado de mentiras."

sábado, 6 de agosto de 2011

Cinema - "Rio das mortes" de Fassbinder


Primeiro trabalho de Fassbinder para a TV alemã, “Rio das Mortes” narra o périplo de dois jovens de Munique em busca de recursos para uma ousada empresa; viajar até a América do Sul em busca de ouro. O tema da película foi baseada em uma antiga idéia do diretor alemão Volker Schlondorff, sobre o abismo existente entre a realidade cotidiana e o mundo imaginário dos contos e das utopias. Vale lembrar que o filme foi rodado 1970, ano em que o sonho terminou.
Os protagonistas – Marc e Gunther – trabalham em empregos informais e vivem uma entediada existência nos subúrbios de Munique; ambos possuem um mapa do Peru, onde na localidade de Rio das Mortes se encontra um tesouro escondido: lenda?Verdade? Ninguém sabe. O que interessa é acreditar em algo que os liberte de seus cotidianos regidos pela dura e hipócrita engrenagem das relações sociais.
A diva Hanna Schygulla (Lili Marleen) interpreta a namorada de Marc - um hippie pintor de paredes; ela não se conforma em estar excluída da estrepitosa missão do ser amado por terras distantes. Sua insegurança a leva – entre outras coisas –a dormir com o parceiro de Marc e até a uma tentativa mambembe de assassinato.
Rodado em 3 semanas com direção e roteiro de Fassbinder, “Rio das Mortes” é um elogio a Utopia e as tentativas de busca de outras possibilidades existenciais além da inútil e tirânica realidade.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Música: "God bless you, Amy"


Todo mundo já escreveu sobre a morte de Amy Winehouse; alguns textos até muito bem escritos e acho que eu não acrescentaria em nada se resolvesse também enveredar pelo assunto. Foi então que eu pensei em publicar aqui um post feito por mim em junho de 2007, para um blog de amigos barceloneses. Lembro que na época Amy estava todos os dias nas páginas dos principais jornais britânicos com um aspecto cadavérico; sua música estava em segundo plano. Eis aqui o post:

"Alguns preferem falar dos seus dentes; outros, das marcas de pico no seu pescoço e muitos procuram morbidamente pela internet seu "manual-prático-visual de auto-destruição": eu prefiro a voz, seu timbre, o ritmo, a música.
"Tears dry on their own" é um clássico com apenas 1 ano de idade. Imagino daqui a 30 anos alguém vendo esse clip e terá a mesmíssima sensação que tenho quando assisto um vídeo de Marvin Gaye & Temmy Tarrel, ou Billie Holliday e Lester Young.
Sim, vivemos em uma época de merda. Mas pelo menos é a época de Amy Winehouse.
É a maior cantora de soul surgida nas últimas quatro décadas e ela não precisará morrer para que se lembrem disso.
God bless you, Amy"

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Cinema : Série Paul Morrissey (5) - "Flesh"


Por um problema de logística – esse era o único filme que não estava a venda na FNAC Barcelona – escrevo agora o último comentário das cinco películas analisadas pela dobradinha Paul Morrisey-Andy Warhol. “Flesh” deveria ser a primeira porque de fato foi a estréia do diretor como responsável geral por tudo o que a Factory produziria no âmbito cinematográfico, mas o filme estava esgotado e agora já sei o motivo.
“Flesh” é um prato cheio para o público gay. Relutei em usar esse epíteto mas depois de 90 minutos de película é incorruptível essa sensação. O nu masculino é prioritário, as atrizes não tiram a calcinha mas é interessante constatá-lo porque no final dos anos 60, a nudez feminina era a nudez estilizada. Filmado em 1967, o filme contém os mesmos elementos e personagens que seguiriam em “Trash” e em “Heat”. Vagabundos viciados pelas ruas de Nova Iorque em busca de sexo e heroína; travestis e anônimos em busca da fugaz felicidade que o universo mediático pode oferecer. Já estamos falando de mulheres que aderem ao uso do silicone , do culto ao corpo, da idealização da beleza masculina e da “imprensa rosa” que invade os meios de comunicação de massa; tudo é superficial, frívolo, de plástico. Feito há 40 anos atrás, “Flesh” parece que foi lançado ontem. Morrisey segue com um estilo quase documental, ultra-realista e com diálogos semi improvisados. Destaque para cena em que John Dallesandro recebe sexo oral de uma stripper em uma sala com duas travestis sentadas lendo revistas; elas se incomodam e perguntam se não sentem vergonha em fazê-lo na frente deles; ele respode: “Não. Porque os anjos também fazem”. A stripper quer botar silicone “porque todo mundo bota” e a dupla travestida replica: “Olhe para as estátuas gregas. Nenhuma delas tinha o peito de vaca e eram exuberantes.” “Se uma tivesse colocado,se destacaria”, resume a go-go girl. E para terminar, afirma que prefere trabalhar o corpo do que o cérebro, porque quanto mais se aprende, mais se deprime.
Com “Flesh” encerro o ciclo sobre Paul Morrissey /Andy Warhol.
Hasta la vista.

Literatura - Noir (6) - Raymond Chandler - "O sono eterno"


Primeiro romance de Raymond Chandler, “ O sono eterno” é também a primeira aparição do mítico detetive Philip Marlowe - que ainda protagonizaria outras seis novelas do autor norte-americano. Depois de escrever contos policiais com enorme êxito para revistas pulp, Chandler decidiu enveredar por narrativas mais longas; geralmente ambientada na Califórnia dos anos 30, vários de seus romances foram levados às telas; “O sono eterno” não foi uma excessão e foi adaptado para o cinema com estrelas como Humphrey Bogart e Lauren Bacall.
Em uma Los Angeles mergulhada na depressão, Marlowe – detetive particular que trabalha “por 25 dólares diários mais despesas” – recebe a incombencia de um velho milionário: descobrir o autor das chantagens dirigidas a sua filha. Ao entrar no caso Marlowe se encontra com muito mais: homicídios, extorsão, jogo e pornografia.
Lançado em 1939, é considerado obra obrigatória para os amantes da Literatura Noir.
Trecho escolhido : “Você está morto, está dormindo o grande sono, o sono eterno, e não se perturba com coisas assim. Para você, petróleo e água são a mesma coisa que o vento e o ar. Você simplesmente dorme o sono eterno, não se importa com as circunstâncias desagradáveis da maneira como morreu ou onde seu corpo caiu. Eu agora fazia parte das circunstancias desagradáveis.”

terça-feira, 12 de julho de 2011

Cinema - "Gainsbourg" de Joann Sfar


Serge Gainsbourg foi um homem "extraordinário"; amou as mulheres que quis - as mais desejadas do seu tempo - e entrou para o hall dos grandes compositores de música popular do século XX. Há quem especule que se fosse inglês, seria tão incensado quanto Dylan ou Cohen. Realizar um filme sobre Gainsbourg é correr riscos; pode-se sublimar demais dramas menores ou minimizar passagens épicas do personagem: depende do olhar, do grau de intimidade e entendimento que se tem com o "mito". O diretor Joann Sfar acertou em não optar por uma cinebiografia linear, ao estilo de outros filmes sobre Ray Charles e Johnny Cash. Cartunista de formação, Sfar introduziu elementos de animação, criando uma atmosfera onírica, mágica, quase em tom de fábula, nos momentos em que Gainsbourg entra em conflito com o sub-consciente. E haja conflitos na alma de Serge, um homem que flertou com diversos estilos musicais - rock, reggae, jazz - sem perder a identidade dentro do que implica a "chanson francesa". Além de um belo filme, "Gainsbourg" também marca a última aparição de Lucy Gordon nas telas de cinema; impecável na interpretação de Jane Birkin, a atriz inglesa se enforcou logo após as filmagens.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Literatura - "Wasabi" - Alan Pauls



Até o ano de 2003 corria um chiste entre autores de língua espanhola de que Alan Pauls "não existia"; deve-se a brincadeira ao fato do escritor argentino ser tema recorrente nas conversas entre Roberto Bolaño, Enrique Villa-Matas, Fersán e ao mesmo tempo não ter livros publicados na Espanha. Quando Alan Paus ganhou o prêmio Herraldes em 2003, esse "mistério" foi prontamente resolvido pelos leitores e pela crítica européia: "ele existe!". O nome do autor portenho chegou até a mim através do filme "O passado", de Hector Babenco - adaptação cinematográfica do seu terceiro romance. Apaixonado pela película, percorri por diversos sebos atrás do livro, esgotado. Foi quando "Wasabi" caiu em minhas mãos. Publicado em 1993, a obra tem claro perfil autobiográfico já que o narrador é convidado para uma estadia numa residência de escritores em Saint Nazaire, França - fato que também ocorreu com Pauls. Acossado por um quisto nas costas, o protagonista sofre de um enigmático desfalecimento dos sentidos que duram precisamente 7 minutos; sonho, vigília, delírio ou proximidade da morte? Todos os dias ele aguarda - até com uma certa expectativa amistosa - o "apagão" interno acontecer. Enquanto o quisto se transforma em deformidade - certo ar Kafkaniano - o narrador se vê à deriva entre o amor patológico pela esposa, os problemas da tradução de seu romance para o francês e a busca incessante em encontrar um autor de vanguarda retirado do mundo literário.Considerado um dos grandes nomes da literatura argentina contemporânea, Alan Paul é um estilista à altura de Javier Marias; o vigor e a forma impecável de sua escrita são os grandes trunfos do livro.
Trecho escolhido: "Consumida por via oral(....) a pomada, no entanto, nos proporcionou uma surpresa extraordinária. Seu sabor, como o do wasabi, a mostarda japonesa, durava pouquíssimo na boca. Assim que entrava em contato com a língua, um súbito crepitar parecia convertê-la em ar, em uma espécie de inspiração ardente que atravessava o paladar e contaminava as narinas. Era como um gás. Tellas começava aplicando-a com cuidado sobre o quisto. Derramava uma pequena dose na ponta de um dedo e me dava para provar, e depois ela aplicava-se a sua.(...)Nos transformávamos em carne, carne reduzida a um estado máximo de pureza,pura carne crua."

sexta-feira, 24 de junho de 2011

"A volta dos vinis"(7) - John Coltrane - "Blue train"


Se W. C. Handy foi o primeiro músico a orquestrar um blues, Duke Ellington organizou e ao mesmo tempo subverteu essa orquestração; sem dúvida, o maior compositor e regente de jazz de todos os tempos. John Coltrane tinha em mente essas duas influências quando entrou em estúdio em setembro de 1957 para gravar "Blue train". Acompanhado por "Philly" Joe Jones nas baquetas, Paul Chambers no baixo,Kenny Drew no piano e os metais de Lee Morgan(trumpete) e Curtis Feller(trombone), o maior saxofonista tenor da história mergulhou fundo no estilo "Hard bop" da época sem deixar de reverenciar as tradições orquestrais do blues. O fraseado bluesy da faixa homônima que abre o disco, logo é selvagelmente interrompido por um solo de Coltrane, seguido com a mesma intensidade pelo trompete de Lee Morgan até ganhar nitidez e sobriedade no trombone de Curtis Feller; como se Coltrane quisesse dizer; "calma, ainda estamos na primeira música do disco!". O lado A termina com "Moment´s notice", com destaque para os solos de Morgan e Coltrane além do exímio acompanhamento rítmico de Joe Jones. É com ele mesmo - em uma monumental virada de bateria - que inicia o lado B com "Locomotion", seguida de um emotivo solo de sax de Coltrane para a única faixa não assinada pelo saxofonista no disco, o standard "I´m old fashioned". O crítico Robert Levin diz que um dos maiores atributos da obra é a "liberdade" experimentada pelo sexteto sem negar um princípio de organização; lição bem aprendida de Duke Elligton, porém o resto, é puro Coltrane. "Blue train" é um dos mais felizes encontros entre o hard-bop e o blues.

sábado, 18 de junho de 2011

Cinema - "Somewhere" de Sofia Coppola



Quarto longa-metragem da carreira de Sofia Coppola, "Somewhere" é uma obra que poderia constar na filmografia de Jim Jarmuch(!) - dada a tamanha a influência do diretor sentida no decorrer da película- referência pouco comentada por Sofia, ela prefere citar Antonioni e Fellini como seus mestres fundamentais. O filme narra a história de Johnny Marco, um ator que passa os dias entre compromissos midiáticos e bebedeiras hedonistas numa suíte do hotel Chermont, ponto badalado das celebridades de Los Angeles. Interpretado por Stephen Dorff,("Cecil B. Demented","I shot Andy Warhol") , o protagonista recebe visitas da única filha, uma pré-adolescente que tenta de todas as formas ganhar a atenção do pai, completamente absorto e entediado com as frivolidades do mundo que o cerca. Entrevistas, fotos promocionais, groupies ensandecidas, paparicos por parte da imprensa, nada parece agradar a Johnny Marco. O filme é uma crítica ao universo glamouroso e superficial que aflige as celebridades, o lado b dos sentimentos escondidos nas frias paredes dos quartos cinco estrelas, na rede líquida das relações humanas baseadas no mundo do espetáculo. Tiro certeiro de Sofia Copolla, se não fosse tão latente a influência de Jim Jarmuch.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Cinema - "Ao cair da noite" de Roger Vadim


Brigitte Bardot se isolou do mundo e abandonou a carreira cinematográfica no início dos anos 70; para a musa, a causa dos direitos dos animais era mais factível do que estrelar filmes de conteúdo "suspeito"; "o ser humano não vale à pena", disse numa entrevista da época. Sobraram farpas ao ex-marido, o diretor Roger Vadim, responsável por impulsionar a ascendente carreira da atriz francesa; em parte, tem razão; "E deus criou a mulher" expõe Brigite num mero arquétipo de fêmea frívola, sem saber o que fazer com o próprio desejo. A pergunta é simples: ela topou o papel? sim, então, Vadim se exime da acusação. "Ao cair da noite" foi lançado em 1958 - dois anos depois do êxito mundial de seu primeiro filme - e se nota, pelo breve tempo de espaço entre ambos, a maturidade de Brigitte como atriz. Rodado inteiramente em uma zona rural da Espanha, a película trata do amor e seus dilemas num meio de opressão moral e religiosa. Com todos os elementos necessários para o "drama" - paixões inconfessáveis, crime acidental, fuga e desejos reprimidos - a trama se desenvolve sem grandes surpresas; o trunfo está justamente nela; o cinema americano nunca esteve "preparado" para a sensualidade de Bardot; o cinema inglês só reconheceu alguma diva à altura quando Jane Birkin surgiu duas décadas depois. A atriz francesa seduz mesmo quando grita, ofende e chora. Roger Vadim sabia disso. "Ao cair da noite" só vale por ela, aquela que Deus criou, e que nós nunca vamos esquecer.

"A volta dos vinis"(6) - Beirut - "Lon Gisland"


Lançado em 2007 - logo após o début da banda com "Gulag Orkestar" - "Lon Gisland" é um EP com quatro únicas canções; quatro "pérolas" da orquestra de Zach Condon, líder e mentor do Beirut. Se Emir Kusturika filmasse no sul dos Estados Unidos, certamente essa seria a trilha sonora escolhida; "Elephant gun" abre o vinil com seu lamento melódico, apoiado pelas cornetas do cancioneiro popular mexicano; as outras faixas - "My family's Role in the world revolution", "Scenic world" e "Carousels" sintetizam o feliz encontro entre o "folk balcânico" e outras diversas referências musicais contemporâneas da banda. O uso de instrumentos como o ukulele - originário da Ilha da Madeira com apenas quatro cordas, lá, mi, dó e sol - aliadas aos de sopro como a tuba e a tuba menor, conferem às canções uma camada sonora única, densa e emotiva. Vale dizer que o EP só tem um lado, o outro fica à deriva em nossa imaginação, bem afeita à proposta deles. Imperdível.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Cinema - "Machete" - Roberto Rodriguez


Saber que "Machete" foi originado por um "falso" trailer incluído no filme "Planeta Terror" de seu mesmo diretor, só aumentou o interesse pela película(e que película!!). Absurdamente inverossímil na sua totalidade - como uma história em quadrinhos - "Machete" acerta em várias direções; da previsibilidade canhestra do roteiro - o anti-herói chicano que sem perceber, vê o destino "conspirando" para que ele concretize a vingança contra o matador de sua família - das interpretações cínicas e despretensiosas de Lindsay Lohan, Robert de Niro, Steven Seagal e obviamente do protagonista, Danny Trejo - na vida real, primo do diretor Roberto Rodriguez com onze anos passados em penitenciárias americanas. A crítica sobre a política de emigração dos EUA é recorrente nas quase duas horas de projeção até culminar na cena final, onde um apoteótico conflito armado separa o joio do trigo. Ou seja, os maus americanos dos bons mexicanos. Blood! blood!!exploitation!

domingo, 15 de maio de 2011

"A volta dos vinis"(5) - Arrigo Barnabé - "Suspeito"



Arrigo Barnabé surgiu no final da década de 70 ao lado de nomes como Itamar Assumpção, Ná Ozzetti, Rumo, Tetê Espíndola - entre outros - num movimento musical denominado de "Vanguarda paulista". O grupo atuava fora da Indústria fonográfica oficial - mais por questões de mercado do que propriamente opcional - e o público interessado em boa música agradece: a coragem e a determinação desses artistas em bancar produções independentes , longe de realizar as tais "concessões artísticas" em nome de grandes vendagens, deixou um legado único na música popular brasileira. Compositor erudito de formação, Arrigo gravou quadro discos na década de 80 e espero comentar cada um deles aqui no blog - sem me prender à ordem cronológica.
"Suspeito" foi lançado em 1987, com participação de Tetê Espíndola e produção de Dino Vicente; apesar de abusar dos recursos de sintetizadores -tão em voga na época - o disco sobrevive como um marco pop da década de 80; da bossa de "A serpente" até à balada de "Êxtase", a música tem um pé no sinfônico, outro pé no popular - quase brega; "Você tem medo de fazer amor comigo/você tem medo de acordar com um bandido", diz a letra da faixa título. O primeiro rap brasileiro talvez esteja nesse disco; "Dedo de Deus" é falado do início ao fim, em meio de sons rodeados de samplers, teclados e bateria eletrônica. "Já deu pra sentir" compostada por Itamar Assumpção e regravada por Cássia Eller no seu disco de estréia, tem um belíssimo arranjo de cordas e violão, com a letra meticulosamente susurrada por Arrigo - bem diferente da versão de Cássia. Um artista de olho na modernidade e com os pés na modernidade. A obra de Arrigo Barnabé é uma das mais originais e inventivas da música popular brasileira.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Literatura - "Tanto faz" e "Abacaxi"- Reinaldo Moraes


No conservador Rio de Janeiro dos anos 50, a imprensa gostava de brincar sobre as vissicitudes do "poetinha"Vinícius de Moraes, cantarolando uma versão tolinha sobre a melodia de "Se essa rua fosse minha". Era mais ou menos assim:" se eu tivesse, se eu tivesse/muitos vícios/e esses vícios fossem todos imorais/eu me chamaria, eu me chamaria Vinicius/me chamaria Vinicius de Moraes." Corte para os libertinos cocainômanos anos 80. Ninguém cantaria uma aberração dessas - tempos modernos. Mas se houvesse alguma corrente ultra-moralista dessa época, o personagem acima manteria o sobrenome, a única troca ocorreria no nome de Vinicius por Reinaldo Moraes.
Dificíl medir qual dos dois é mais "romântico" - cada um ao seu modo.
A Companhia das letras relançou em formato pocket , os dois romances publicados pelo autor paulista nos anos 80; "Tanto faz" e "Abacaxi", respectivamente de 1981 e 1985. O narrador das novelas é Ricardo de Mello - professor extenuado de toda a burocracia e vaidade do mundilho acadêmico de São Paulo que recebe uma bolsa de um ano em Paris; na cidade-luz protagoniza uma trajetória errática na tentativa de escrever seu primeiro livro, entre porres em cafés no Quartier Latin, noites desmemoriadas ao lado de fêmeas das mais variadas ideologias & todas essas ressacas maravilhosas acompanhadas de monólogos internos diante dos espelhos de vagões do metrô. A narrativa de Reinaldo Moraes é muy muy peculiar - vale lembrar que em 1981, as sequelas "político-emocionais" dessa geração - criada numa Ditadura militar - apresentavam os primeiros sintomas.
Trecho escolhido: "Volto pra mesa e mato num gole o que resta de vodka no cálice. Justo nesse instante, quando o álcool faz sua agradável devastação no meu estômago vem a idéia maluca: virar marinheiro. Me enfiar num cargueiro em Marselha,correr mundo. Pegar gonorréias internacionais. Amar nórdicas voluptuosas e gregas clássicas. E vice-versa. Experimentar a solidão das longas travessias. Pensar em tudo. Morrer de tédio, de medo, de tesão. Provar o amor dos portos, viver a liberdade no mar. Like a floating stone. Jack London."

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Cinema - "Clean" de Olivier Assayas

Um drama contemporâneo respaldado com os prêmios de melhor fotografia e atriz principal no Festival de Cannes de 2004, "Clean" narra a história de Emily- uma produtora musical que perde o marido em uma overdose acidental de heroína. Ela forneceu a droga para o próprio esposo - um cantor decadente sem perspectivas no mercado. Emily passa seis meses na prisão mas para retomar a posse do filho, precisa também largar o vício e procurar um emprego. "Clean" é um filme que trata com extrema nitidez o árduo processo do ser humano cuja única solução existencial é de se "reinventar". Abandonar sonhos e velhas certezas para conseguir seu quinhão no mundo prático, na realidade objetiva das coisas. Com uma atuação soberba de Maggie Chung, o roteiro é certeiro na pontuação psicológica da personagem; ela exita, sofre, não sabe se deve amar por vocação ou desejo. Décimo-primeiro longa de Olivier Assayas - mesmo diretor de "Cold water", o filme traz uma belíssima atuação de Nick Nolte, em seu primeiro grande papel numa produção francesa.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Literatura - "Guerra dos bastardos" - Ana Paula Maia


Ana Paula Maia é uma das grandes autoras contemporâneas da literatura brasileira; "Guerra dos Bastardos" - lançado pela editora Língua Geral em 2007 - confirma essa afirmação. A novela poderia se passar num subúrbio de Kosovo, num bairro periférico de Marselha ou em qualquer região onde as misérias - moral e humana - se vêem espelhadas nos traços de seus habitantes. A autora situa geograficamente a trama por uma única vez: Brasil e Argentina são citados nas primeiras páginas - o que só fortalece a universalidade do tema/história. Os personagens falam por si mesmos; músicos endividados, atores pornôs - onde inclui-se a prática do pompoarismo - , traficantes e produtores de cinema mergulhados no consumo de pó. Narrado majoritariamente em terceira pessoa, com pequenos trechos descritos na primeira, "Guerra dos bastardos" não é para espíritos pouco afeitos à realidade de mundos aparentemente distantes de nós mas que estão visíveis ao nosso lado. A autora esse ano encerrou a "Trilogia dos brutos", com a publicação de "Carvão animal" pela editora record. Eu não perco.

Trecho escolhido:" "Espero que morra engasgado, vira-lata desgraçado", murmura Pablo e não o cachorro. Apesar de vivermos num mundo cão eles ainda não sabem falar.
(.....) "Onde há morte, sempre há vida especulativa ao redor"
(.....) "Nós amamos apenas aqueles que resistem", diz Gina". "Os demais, nós toleramos".

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Literatura - "Anjos da desolação" - Jack Kerouac



Jack Kerouac passou 63 dias - no verão de 1956 - como vigia de incêndios no Desolation Park, a dois mil metros do nível do mar, no Estado de Washington. O maior nome da geração beat já havia publicado "The town and the city" no início da década sem repercussão midiática; então, "Anjos da desolação" se trata do autor de "On the road" alguns meses antes de virar ícone de toda uma geração; no ano seguinte, "On the road" seria publicado e Kerouac se tornaria uma lenda.
Só por esse fato, o livro já merece ser lido.
Isolado nas montanhas, longe do alcool, das drogas e de companhias femininas, Kerouac se põe a refletir sobre a existência; a minha, a sua e a de todos nós. O ritmo do texto soa como os solos de Charlie Parker, Dexter Gordon e Sonny Rollins; be bop puro do inconsciente, da irremediável sensação rimbaudiana do poeta como "roubador de fogo que responde pela humanidade"; Truman Capote gostava de dizer que Kerouac não escrevia mas "datilografava"; pois é para muito poucos "datilografar" a alma, com a precisão de quem vê aquilo que os outros sentem e temem enxergar.
Na segunda parte do livro, Kerouac segue sua trilha pelo México, Tânger, França e Londres, para retornar à tão amada América.

Trecho escolhido : "É bem fácil entender que como artista eu preciso da solidão e de uma filosofia do estilo "não fazer nada" que me permita sonhar o dia inteiro e trabalhar capítulos de delírios esquecidos que emergem anos mais tarde como uma história - Nesse sentido é impossível, já que é impossível que todo mundo seja artista, recomendar a minha maneira de viver como uma filosofia adequada para outras pessoas - Nesse sentido sou um excêntrico, como Rembrandt - Rembrandt pintava os burgueses ocupados depois do almoço, mas à meia-noite enquanto todos dormiam renovados para acordar no dia seguinte, o velho Rembrandt estava de pé no estúdio acrescentando leves toques de escuridão na tela deles - Os burgueses não esperavam que Rembrandt fosse nada além de um artista e assim não batiam na porta à meia-noite para perguntar: "Por que você vive assim?Por que você passa a noite sozinho? Com o que você está sonhando? Então eles não esperavam que Rembrandt se virasse e dissesse: "Vocês devem viver como eu, na filosofia da solidão, não existe outro jeito."

sábado, 19 de março de 2011

Literatura - "Todo terrorista é sentimental" - Márcio Menezes


Estimados amigos e blogueiros, meu primeiro romance "Todo terrorista é sentimental" já se encontra nas livrarias de todo Brasil, lançado pela editora record; são 350 páginas com certos componentes autobiográficos onde escancaro - com a devida dose de ficção - a sensação de impotência e indignação com a classe política brasileira. Quem nunca disse para si mesmo, depois de assisitir a outro escândalo de corrupção em Brasília, que mandaria todos esses deputados para o inferno? No livro, três estudantes universitários levam às ultimas consequências essa insatisfação e criam de forma amadora e desordenada, o Comando Terrorista Anti-Corrupção.
O pano de fundo é o Rio de Janeiro dos anos 1990; a seleção brasileira conquista o tetra-campeonato Mundial , os "cara-pintadas" elegem e "derrubam" Collor, Chico Science pousa no Circo Voador pela primeira vez e o Plano Real é a aposta à tão sonhada estabilidade econômica.
Entre todos esses acontecimentos, um deputado "explode" dentro de seu jaguar...dois meses depois outro político morre nas mesmas circunstâncias e ...
Bom, não posso contar mais!!

sexta-feira, 11 de março de 2011

"A volta dos vinis"(4) - Charlotte Gainsbourg - "lRM"



Ser filha de Serge Gainsbourg e Jane Birkin não é exatamente uma condição confortável para quem opta pela carreira artística. Charlotte Gainsbourg tem o mérito de obter luz própria sob o peso das duas "lendas" que a conceberam ao mundo. A moça - nem tão moça assim nos seus 37 anos - possui um currículo de 32 filmes, um prêmio no Festival de Cannes além de dois Cesars faturados no início de sua carreira como atriz. E Charlotte também canta. Depois de debutar na música aos treze anos, com um disco inteiro composto pelo pai, a francesa gravou outras duas obras; "5:55" em 2006, tendo o grupo Air como banda de apoio e "IRM"- lançado
em 2009. É sobre esse último que vou comentar.
No formato vinil "IRM" virou álbum duplo - um charme. O lado A é composto por três faixas que anunciam a atmosfera sombria que está por vir; flerte com o trip-hop, susurros, ecos vocais cadenciados com ritmos eletrônicos de baixa tensão. Na canção que dá título ao disco ela nos pergunta; "Tire uma foto/ o que tem dentro?/uma imagem fantasma/na minha mente".Violinos e celos consturam o arranjo de "Le chat du café des artistes" - outro petardo desesperançado em que a doce voz de Charlotte proclama:"Então me jogue para o gato/talvez ele recuse meu braço e meu fígado/mas escolha o momento certo/para que então coma meu coração". No lado B, as melodias sugerem uma súbita mudança de ânimo apesar do caráter niilista das letras. A clássica "Heaven can wait" tem a participação de Beck nos vocais - também produtor do disco e autor da maioria das faixas. Os lados C e D dividem sete canções com sonoridades que se entrecruzam e se complementam, dando o caráter contemporâneo e intimista do disco. "IRM" é para ouvidos exigentes, sensibilidades aguçadas e mentes com o mínimo de desconfiança sobre o que as pessoas chama lá fora de "realidade".

quarta-feira, 9 de março de 2011

Literatura - "Vício inerente" - Thomas Pynchon


É a primeira vez que faço a resenha de um livro sem terminá-lo. Há dois motivos para isso: o primeiro; o medo "ancestral"de se chegar na última página e acabar o romance ; o segundo - inveja, muita inveja "criativa" desse que é considerado um dos maiores escritores da virada do século: Thomas Pynchon.
"Vício inerente"é a oitava obra do autor americano; uma narrativa "lisérgica" ambientada na califórnia dos anos 70. O protagonista - um detetive "chapado" com grandes laços afetivos na comunidade hippie e nos bast fonds locais - se vê mergulhado em um caso onde se mistura especulação imobiliária, grupos racistas, traficantes, ex-músicos adictos, mulheres à beira de colapsos mentais, dentistas mafiosos, groupies zen budistas, e claro - o alvo inicial da investigação - um "figurão" de Los Angeles desaparecido. Tudo isso embalado ao melhor rock and roll e surf music da época.
Pynchon consegue manter o fôlego alucinado da narrativa sem perder o ritmo ao longo de 460 paginas; muitas vezes o leitor pode se perder no meio da centena de referências cinematográficas, musicais, televisivas e literárias citadas por Pynchon. O autor não abre mão desse recurso para situar o perfil psicológico-cultural dos personagens. O grau de inventividade na descrição de determinadas ações - que invariavelmente não vão se revelar determinantes na resolução do caso - beira a genialidade. Um dos grandes mestre da literatura mundial

Trecho escolhido: "De volta à sua casa, Doc ficou um tempo olhando uma pintura em veludo de uma das famílias mexicanas que montavam as suas barraquinhas de fim de semana ao longo dos bulevares que atravessavam a planície verde onde as pessoas ainda andavam a cavalo entre Gordita e a estrada. Saindo das vans para as calmas primeiras horas da manhã vinham Crucificações e Santas Ceias da largura de sofás, motoqueiros foras da lei sobre Harleys elaboradamente detalhadas, super-heróis durões com uniformes das Forças Especiais carregando M16s e por aí vai. Este quadro de Doc mostrava uma praia do sul da California que nunca existiu - palmeiras, moças de biquíni, pranchas, essa coisarada toda. Ele pensava nele como uma janela por onde olhar quando não dava conta de olhar pela de vidro do tipo tradicional do cômodo ao lado.Às vezes nas sombras a paisagem se iluminava, normalmente quando ele estava puxando fumo, como se tivessem mexido no botão da contraste da criação só o suficiente para tudo ficar com uma aura, um contorno radiante, e prometer que a noite estava a ponto de se tornar épica, de alguma maneira.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

"A volta dos vinis(3)" - Lucas Santanna - "Collector's choice"


Luiz Valente é o nome responsável pela "Vynil land Records"; Dj e produtor, ele resolveu bancar seu próprio selo dedicado aos discos de acetato. Desde a fundação da empreitada - no final de 2008 - já foram lançados 13 nomes da música brasileira contemporânea; entre eles, Lucas Santanna.
Nascido em Salvador, Lucas iniciou a carreira como instrumentista ao lado de ícones como Caetano Veloso e Gilberto Gil. Como compositor teve canções registradas nas vozes de Marisa Monte e Fernanda Abreu, até partir para carreira solo em 2000, ao lançar o elogiadíssimo "Eletro ben Dodô" - incluído na lista dos 10 melhores cds independentes na lista do "New York Times".
"Collector's choice" é a copilação de 11 faixas selecionadas entre os quatro cds que compõe a discografia de Lucas; além do já citado "Eletro ben Dodô", figuram "Parada do Lucas"(2003), "3 sessions in a greenhouse"(2006) e do último trabalho, "Sem nostalgia" (2009).
O resultado é uma "pérola" de um dos mais talentosos compositores de sua geração; destaques para o hit "De coletivo ou de metrô" - obrigatória em qualquer festividade carnavalesca contemporânea e a comovente balada "Nightime in the backyard".
"Collector's choice" não é imprecindível somente nas estantes dos amantes do vinil, mas para todos os apreciadoes de boa música brasileira.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Cinema - "Wanda" de Barbara Loden



Dica do meu amigo poeta Fernando de Andrade, "Wanda" é uma obra-prima do cinema independente americano. Dirigido e protagonizado por Barbara Loden, o filme recebeu o "status" de "Cult" apesar de haver conquistado o prêmio da crítica no Festival de Veneza de 1970 e ser exibido em Cannes no ano seguinte. Com uma atmosfera asfixiante, planos longos e perturbador desde o primeiro minuto, a película narra a estória de Wanda; casada, com dois filhos e absolutamente entendiada com a vida de dona-de-casa na Pensilvânia, ela resolve pedir divórcio; o juiz lhe pergunta: "Você vai abandonar suas crianças, por quê?"; ela é direta: "Eles vão ficar melhor com meu ex-marido". Inicia-se então o périplo de uma mulher desorientada em busca de si mesma; o que ela encontra é sexo casual, violência, crime e desolação. O curioso é que Barbara Londen era uma reconhecida atriz da Broadway, casada com Elias Kazan - um dos mais renomados diretores americanos de todos os tempos - e amplamente "inserida" nos padrões hollywoodianos de se fazer cinema. "Wanda" rompe com toda essa estética, reverencia o estilo de John Cassavetes e nos proporciona uma obra original, com linguagem própria. Imperdível.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Literatura - "Bravura indômita" - Charles Portis


Sempre tive preconceito com o gênero "Western"; nas "sessões da tarde" no final dos anos 70, John Wayne me entendiava com a rapidez e a precisão de seu gatilho em exterminar índios excluídos e criminosos brancos desajustados. Glauber Rocha foi o primeiro a me chamar atenção para os filmes de John Ford e sua contribuição estética à sétima arte; foi o próprio baiano que disse que "Deus e o Diabo na terra do sol" era uma tentativa de mesclar essa estética com a realidade brasileira - no caso, o sertão.
Outro nome importante para a perda desse preconceito me foi apresentado recentemente: Charles Portis. Nascido no Arkansas em 1933 e incorporado aos fuzileiros navais na Guerra da Coreia vinte anos depois, Charles abandonou a carreira militar para se dedicar a literatura e ao jornalismo.
É autor de apenas seis novelas; entre elas dois clássicos "westerns" instantâneos que foram levados às telas do cinema:"Norwood"(1966) e "True Grit"(1968). Esse último - traduzido no Brasil como "Bravura Indômita" e filmado em 1969 - ganhou uma nova versão realizada pelos irmãos Coen em 2010. O enredo é batido e infalível; a vingança da filha pelo assassinato do pai; a narrativa é simplória; em primeira pessoa construída pela própria menina de 14 anos. Os personagens; um agente federal com um passado delitivo, um detetive mais interessado na recompensa do que fazer justiça e toda a fauna do velho-oeste mergulhada em coldres com calibres 45. São raríssimos os casos das adaptações cinematográficas serem melhores que os livros. Ainda não vi o filme e - com todo o respeito pela obra dos irmão Coen - não creio que essa seja uma das exceções.

Trecho escolhido: " Eu disse: "Se você se recusar a ir, eu vou ter que atirar em você".
Ele continuou o que estava fazendo e disse: "Ah? Então é melhor engatilhar a sua arma".
Eu tinha esquecido disso. Puxei o cão pra trás com ambos os polegares.
"Até o fim, até travar", Disse Chaney.
"Eu sei como fazer", disse eu. Quando engatilhou eu disse, "Não vai vir
comigo?"
"Acho que não", disse ele. (......)
Apontei o revólver na direção da barriga dele e o derrubei com um tiro.
Ele segurava o ferimento com as duas mãos. Disse, "Não achava que você
fosse fazer isso comigo".
Eu disse, "O que acha agora?"

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Cinema - "Biutiful"



Javier Barden parece se reinventar em cada filme que protagoniza; sem dúvida nenhuma, pode-se considerá-lo um dos maiores atores de língua espanhola de todos os tempos. Os prêmios que vem acumulando ao longo de mais de 20 anos de carreira atestam essa afirmação. "Biutiful" é o feliz encontro do ator com Alejandro Gonzáles Iñarritu, um dos mais renomados diretores mexicanos das últimas décadas; filmes como "Amores perros", "21 gramos" e "Babel" constam em qualquer lista das melhores películas realizadas nesse início de século.
"Biutiful" é um drama mergulhado na crítica realidade européia surpreendida pela crise financeira de 2008; desemprego, drogas, emigrantes ilegais e miséria moral e econômica desfilam pelas duas horas e dez de projeção.
A Barcelona que Iñarritu nos oferece é a extrema oposta da qual Woody Allen nos apresentou em "Vicky Cristina Barcelona". Se o cineasta americano buscou locações em cartões postais, o mexicano preferiu o Clot, bairro cêntrico mas rodeado de pobreza e deselação. O filme já seria trágico sem o drama pessoal do personagem de Javier Barden: chineses que trabalham como escravos, senegaleses nas filas de deportação e famílias desestruturadas pela miséria e a adição.
Não é recomedável ver o filme num domigo à noite - corre-se o risco de começar a semana "pra baixo", diante de tanto infortúnio. Mas recomendo para todos os dias seguintes e também todas as outras obras de Alejandro Gonzáles Iñarritu.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Literatura - "A arte de ser desagradável" - Jim Knipfel



Lançado pela Bertrand Brasil no ano passado, "A arte de ser desagradável" é um belo exemplo de romance - autobiográfico escrito longe dos hofotes do politicamente correto. Jim Knipfel acha que não temos muito do que se orgulhar; o ser humano é mais estúpido do que se imagina, as relações sociais estão infestadas de hipocrisia;para ele, por um longo tempo, ser um "babaca escroto" era a melhor resposta para contracenar com a realidade. E isso inclui esculhambar artistas iniciantes, incendiar campus universitários e excursionar por clínicas psquiátricas. Vítima de uma doença degenerativa nos olhos, além de outras mazelas físicas adquiridas ao nascer, Jim narra sobre seu périplo até trabalhar como colunista do "New York Press"; são mais de duzentas páginas com o melhor humor negro conemporâneo, sem piedade de ninguém - e muito menos de si próprio.

Trecho escolhido : "Padrões podem ser fatais e perniciosos. Padrões são armadilhas, sempre nos rondando, às vezes de maneira descarada, outras vezes disfarçadas, e raramente nos levam a algo bom. Desde que me entendo por gente, sou atormentado por eles e isso continua até hoje".