terça-feira, 10 de novembro de 2009

"A volta dos vinis (2)" - Nico - "Chelsea Girl"


Encontrei esse disco pelas lojas da rua Tallers - "templo" dos colecionadores de música em Barcelona - e não acreditei : era a primeira vez em que vi "Chelsea girl" em formato vinil.
A maioria dos críticos tem uma opinião comum sobre Nico : sem dúvida, sua carreira e sua personalidade seguem sendo um dos maiores mistérios da música pop. E "Chelsea Girl" é sua pedra inaugural.
O curioso é que ela não gostou do resultado final do disco e culpou seu produtor, Tom Wilson. Onde havia flautas,ela queria guitarra e onde houvesse cordas, Nico preferiria percussão. Bob Dylan (no auge), John Cale, Lou Reed e Jackson Browne lhe enviaram músicas. Leonard Cohen se ofereceu para tocar guitarra. Em 1967 Nico parecia ter o mundo em suas mãos; modelo bem sucedida, fluente em quatro idiomas, "queridinha" de Andy Warhol e "extra" de Fellini, a cantora alemã não era pouca coisa. Brian Jones e Jim Morrison se derreteram por ela, mas a musa estava mais interessada na heroína.
"Chelsea girl" é uma obra de arte. Nunca o pop dos anos 60 flertou tão acertadamente com os instrumentos da música clássica. A abertura de "The fairest of the seasons" e o arranjo de "These days" comprovam isso. O disco segue uma atmosfera "medieval" com flautas e violinos em "White sister" e "Winter song". Nico antecipa o que viria em seus próximos trabalhos solo com a experimental "It was a pleasure then"; com um vocal mais parecido aos rituais religiosos-profanos -cheios de misticismo - do que o vocal de um simples disco de folk. Ela investiria por esse caminho - o desconhecido, o transcendente, o espiritual - até o final da sua carreira. Sua relação com as drogas contribuiu pra isso.
"Chelsea Girls" - a canção de Lou Reed que nomeia o álbum - revela o ambiente freak-junky dos inferninhos de Nova Iorque, tão frequentado por ela. A música é triste, noturna e comovente.
Nietzche dizia que tudo "o que é belo e perfeito,deseja morrer". Nico não quis ser uma exceção.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Cinema : Série Paul Morrissey (4) - "Flesh for Frankenstein".


“Flesh for Frankenstein” marca um novo rumo na cinematografia de Paul Morrissey. Produzido em 1973 e realizado na Cinecitta ,o filme possui uma produção profissional antes nunca vista em suas películas; a narrativa segue uma estrutura formal e a fotografia abandona o estilo quase documental de seus filmes anteriores. Joe Dallesandro protagoniza essa versão trash e de veras bizarra do mito de Frankestein. No filme – bem ao estilo Morrissey – o Barão de Frankestein é casado com sua irmã e se dedica ao ambicioso projeto de criar um “novo homem” e uma raça pura a partir de pedaços de corpos amputados. Udo Kier – que também trabalhou com Lars Von Trier – é o louco barão que segue em busca do homem e da mulher perfeitos e que juntos perpetuarão a nova espécie. Para isso não medem esforços em mutilar os corpos que sejam necessários. A coisa se complica quando Frankestein escolhe o cérebro de um amigo do amante da Baronesa, que era um sério candidato a monge, para começar a nova espécie. E os monges não procriam…Muito sangue, tripas e drama com um Joe Dallesandro interpretando pela primeira vez um persongem que não é ele próprio. No próximo capítulo, “Blood for Drácula”.

Literatura - "Noir"(5) - Dashiell Hammett - "A mulher no escuro".


Em um famoso ensaio chamado “A arte singela do assassinato”, o mestre Raymond Chandler comentou que Dashiell Hammet “(....) tirou o assassinato dos ambientes elegantes e o jogou nas vielas(...)”. O pai do gênero noir dotou de um inédito realismo as tramas policiais até então impregnadas de pistas inverossímeis e resoluções baseadas no intelecto do investigador. Para Hammet, o trabalho de um detetive estava nas ruas, nas esquinas e no contato diário com o cidadão comum – ou com o delinqüente.É sempre interessante relembrar que o próprio Hammet trabalhou como detetive na Agência Pinkerton durante sete anos. “Mulher no escuro” foi publicado na revista Liberty – em três partes – em abril de 1933. Hammet estava no auge de sua carreira literária e o que escreveu depois nunca repetiu o êxito alcançado até essa data. A narrativa começa quando uma mulher – aparentemente ferida – aparece inesperadamente na casa de Brazil: é noite e em 1933 nenhuma mulher ousaria tocar na porta de um homem desconhecido. Mas ela é a “mulher no escuro”. Ele, um ex-presidiário envolvido em assassinato. Escrito com singela simplicidade e diálogos curtos e diretos, o livro é uma pequena jóia do universo de Hammet.

Trecho escolhido: “Acho que estava esperando que alguma coisa acontecesse, algo que me indicaria que direção tomar. Bem, quem apareceu foi você. É o suficiente”.

sábado, 17 de outubro de 2009

Cotidiano - "A segunda morte de Hélio Oiticica"


Frases como "Longa é arte , tão breve a vida" ou "morre o artista e sua obra permanece" povoam o mundo da artes - território habitado por românticos, pessoas sensíveis e gente de "espírito". Mas o que acontece quando a obra "morre"? Hélio Oitica foi vitimado por um acidente vascular cerebral há 29 anos e seguia mais vivo do que nunca com seus bólides, parangolés e "penetravéis" circulando pelas principais galerias de arte contemporânea do mundo. Sexta-feira passada, 16 de outubro de 2009, Oiticica morreu outra vez. A falta de entendimento entre o poder público e a família do artista plástico não ocasionou o incêndio que destruiu 90% do acervo de Hélio mas provocou a irresponsável situação de ter toda sua obra guardada na residência do irmão , no bairro do Jardim Botânico, zona sul do Rio. Sem estar assegurada. É uma tragédia irreparável à cultura brasileira.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Cotidiano - "Exposição de Jorge Guinle no MAM"


"Belo caos" é o nome da maior exposição já feita do pintor carioca Jorge Guinle. Em total são 46 pinturas e 26 desenhos que ocupam o segundo andar do Museu de Arte Moderna do Rio até 8 de novembro. Vitimado pela aids em 1987, o artista foi um dos responsáveis pela revalorização da pintura no cenário brasileiro na década de 80. É impossível permanecer indiferente ao seu estilo abstrato fortemente influenciado pela arte contemporânea do século XX. Jorginho tinha técnica - estudou no Rio, Paris e em Nova Iorque - mas o caráter intuitivo de sua pintura é o que impacta o visitante no primeiro contato com sua obra. Era um colorista corrosivo. No texto do programa - com a curadoria de Ronaldo Brito e Vanda Klabin - o pintor recebe o mérito de haver "liberado a pintura moderna do seu arraigado intimismo" além de revitalizar o" instinto de pintura". Melhor do que elocubrar sobre a obra de Jorge Guinle Filho, é ver o maravilhoso legado que deixou à arte brasileira.





sábado, 3 de outubro de 2009

Literatura - "Noir" (4) - Raymond Chandler - "O longo adeus".


The Long Goodbye” é considerado um dos grandes romances da literatura Americana do século XX. Ao lado de Dashiell Hammett, Raymond Chandler deu a narrativa policial o status “artístico” que faltava ao gênero. Esses autores começaram a publicar seus contos nas revistas chamadas “pulp” – com papel de celulose barato e preços acessíveis, o típico “ler e jogar fora” – que obtiveram enorme êxito editorial nos Estados Unidos na época da depressão. Detetives frios e sentimentais, belas mulheres que exploram ao máximo sua sensualidade em troca de benefícios financeiros e a barra-pesada dos sub-mundos de São Francisco e Nova Iorque. A literatura “noir” introduziu no gênero policial o realismo que faltava as obras de seus antecessores. A descoberta de um caso é fruto de muita investigação – seja nas ruas ou nos ambientes mais requintados – e não de uma inspiração divina surgida de “sextos sentidos”.No caso de Raymond Chandler, a beleza feminina geralmente está associada ao trágico, ao crime, a morte. Sua principal criação, o detetive Philip Marlowe, é ético sem ser moralista, vive de forma honesta e não se fascina pelo dinheiro – algo quase inconcebível em uma Los Angeles sitiada pelo crime organizado e pelo glamour da Industria de Hollywood.“O Longo Adeus” é o sexto romance de Chandler, escrito em 1953 e levado às telas por Robert Altman nos anos 70. Nele, o detetive Marlowe se vê em um caso onde assassinato, fuga e suicídio se fundem em um entorno onde a traição e a lealdade são postas em cena; tudo começa quando nosso protagonista resolve ajudar um bêbado que não consegue conduzir seu próprio rolls royce, ao lado de uma femme fatale, na noite de São Francisco. A partir de um gesto solidário, Marlowe trava amizade com Terry Lennox – homem de passado obscuro casado com um belo exemplar do gênero feminino. Um dia Lennox aparece em seu apartamento com uma automática calibre médio, um passaporte falso e a oferta de 500 dólares para que Marlowe o leve até o aeroporto, onde pegará um vôo até Tijuana. Sem perguntas. Em um longo adeus.

Trecho escolhido: “- Eu sou um escritor. Eu deveria saber por que as pessoas piram. Mas não entendo porra nenhuma a respeito de ninguém.”

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Cotidiano - "Festival de cinema do Rio"



O Festival do Rio começou na semana passada com mais de 300 filmes de 60 países distintos. Tem película para todos os gostos! Depois de assistir "Doze jurados e uma sentença" na segunda-feira - uma excelente obra do renomado diretor russo Nikita Mikhalkov - ontem foi a vez de conferir o esperado documentário de Emir Kusturika sobre Maradona: o resultado? Um golaço de placa.
Kusturika "constura" - perdão pelo trocadilho infame - antológicas cenas de seus filmes com imagens reais sobre a vida do jogador argentino. Assim se cria um paralelo entre as trágicas desventuras de seus personagens e a tumultuada biografia do craque portenho. O documentário enfatiza o atual dogmatismo de Maradona pelas "esquerdas" e sua aproximação com Evo Moralez, Hugo Chavez e Fidel Castro - homem pelo qual Maradona "daria a sua vida".
A "Igreja Maradoniana" também tem destaque, com fiéis celebrando os cômicos rituais de iniciação dessa "nova religião". Um dos atores de Kusturika seguiu os passos de Diego pela antiga capital Iuguslova; perguntado como se sentia nos minutos prévios de ser apresentado ao craque, ele respondeu:
- Vesti essa camisa branca hoje...é a primeira vez que vou falar com Deus.
Segundo Kusturika, se Andy Warhol estivesse vivo, certamente pintaria o seu retrato.

Cinema : Série Paul Morrissey (3) - "Heat"


“Heat”, de 1972, é outra “pérola” do cinema indie americano. Com música de John Cale e estrelada por Joe Dallesandro, o filme marca a despedida de Andréa Feldman. A atriz se jogaria do 14º andar de um edifício da quinta avenida pouco depois da filmagem. Paul Morrisey desfila mais uma vez seu repertorio de outsiders, agora em busca de um lugar ao sol e no caso da película, no sol da Califórnia.Tudo acontece em um motel-pensão onde “estrelas” do sub-mundo de L.A. sobrevivem pra pagar o aluguel; a dona – que diminui o preço dos quartos em troca de serviços sexuais – é bem clara : “Los Angeles está podre mas a minha casa não!”.Joe Dallesandro é um ex-ator infantil em busca da fama perdida, Andréa Feldman é uma mãe solteira que mora com a namorada e é sustentada pela mãe, uma ex-celebridade televisiva que vive do êxito do passado, mas que ainda é vitima do assédio da imprensa rosa. A relação entre a dona da pocilga e os hóspedes – que inclui dois gêmeos que vivem de um número gay em um clube noturno – beira a psicopatia e o histerismo. A narrativa segue o estilo de Morrissey : diálogos longos semi-improvisados com a fotografia enfatizada no “realismo” da personalidade de cada personagem.A sutileza das obsessões sexuais somadas ao interesse da fama e a total falta de comunicação afetiva entre os personagens denota uma Califórnia muito longe do mito Hollywoodiano.Depois de “Heat”, Morrissey e Andy Warhol partiram para produções mais caras e profissionais. No próximo capítulo, a primeira delas, “Carne para Frankstein”.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

"A volta dos vinis" - Serge Gainsbourg - "Histoire de Melody Nelson"



Queridos blogeiros, os vinis estão de volta! É verdade, só no ano passado mais de 2 milhões de discos foram vendidos nos Estados Unidos. Na Europa, todo novo lançamento que se preze - Franz Ferdinand, Amy Winehouse, Rolling Stones - saem em formato cd e vinil. É curioso ver a garotada correndo atrás do "disco" perdido. Muitos marmanjos estão refazendo suas coleções e eu me incluio entre eles. Afinal, ouvir música com o chiadinho do vinil na agulha é algo inenarrável. Outros preferem o dowload - algo parecido com a masturbação.
Na onda de relançamentos do mercado , escolhi para iniciar a série "A volta dos vinis", a pérola de Serge Gainsbourg - gravada em 1971 - "Histoire de Melody Nelson". A lenda em torno do compositor é conhecida. Serge já merece todo o meu respeito só pelo fato de ter o hábito de parar carros da polícia francesa - em plena madrugada parisiense, copo de uísque na mão e cigarro na outra - para pedir que o levassem pra casa. Ele sempre foi atendido.
"Histoire de Melody Nelson" tem apenas sete canções que duram 27 minutos. As músicas seguem um único tema: o amor obssessivo entre um homem maduro e uma adolescente. A estória - como uma ópera rock em francês -termina de forma trágica. Cada faixa se encaixa no "roteiro" onde esse amor é narrado de forma cômica, poética e sublimemente pervertida. Serge destila as letras em tom confessional, ao groove de uma guitarra funky e arranjos de cordas. A música cresce e a tensão aumenta de acordo com a narração do compositor. É impossível destacar uma faixa, todas estão interligadas e formam essa breve suíte musical pop sem precedentes no século XX. Jane Birkin - esposa de Serge - participa em alguns vocais além de figurar na capa ao estilo lolita. Todo um clássico.

domingo, 20 de setembro de 2009

Literatura - "Noir" (3) - Raymond Chandler


Considerado o segundo “pai” da literatura noir, Raymond Chandler introduziu no gênero policial – ao lado de seu mestre Dashiell Hammett – realismo e uma dose de cinismo nunca vista entre seus antecessores. Cinismo e ternura refletidas em seu principal personagem, o mítico Philip Marlowe: sentimental e “looser” por excelência, o detetive figurou em oito romances escritos pelo autor.Para Paul Auster, Chandler inventou uma nova maneira de falar sobre a América, e desde então, a América nunca mais foi a mesma.Nascido em Chicago e criado na Inglaterra, o escritor teve uma sólida formação literária propiciada em uma prestigiada escola pública Londrina. Foi jornalista, trabalhou em bancos até ser executivo de uma empresa Petrolífera onde perdeu o emprego por assediar as secretárias. Lutou na Primeira Guerra Mundial e se mudou para Califórnia, onde viveria toda sua vida.Se casou com uma mulher 18 anos mais velha que lhe propiciou a segurança econômica para escrever. Influenciado pelo realismo das novelas policiais de Dashiell Hammett, onde encontrava o decadente universo moral do vale-tudo para o “sonho americano”, Chandler criou um detetive cínico que não participava das ambições de poder e dinheiro compartida por seus compatriotas. Seu personagem trabalhava por 25 dólares diários, desprezava as tentações capitalistas e tinha um modesto escritório.Em sua narrativa, o cotidiano do detetive – com suas dúvidas, privações e impressões sobre seu entorno – é mais importante do que o simples relato das “pistas” em busca da solução do caso. O cinismo e a ironia de seu texto dotaram à novela policial um “status” literário incomum ao gênero naquela época. Chandler teve seus contos publicados na popular revista “Black Mask” e com o êxito alcançado se dedicou a escrever romances; foram mais de dez e muitos deles levados ao cinema com interpretações de estrelas como Humphrey Bogart, James Stewart, Robert Montgomery e Charlotte Rampling.Morreu em Los Angeles, em 1959, como um dos grandes nomes da literatura americana do século XX.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Cotidiano - " Kristen Stewart - nem tão adolescente assim."



A moça da foto acima só tem 19 anos e um currículo que inclui atuações ao lado de Judie Foster, Meg Ryan, Adan Brody e Sharon Stone. Nascida em Los Angeles, Kristen Stewart é filha de profissionais do meio televisivo e começou sua carreira com apenas 9 anos de idade em uma programa da Disney pouco badalado por aqui - o "Thirteenth Year". Kristen se tornou mundialmente conhecida por interpretar Isabella Swan, a protagonista do filme "Crepúsculo" - um êxito de bilheteria também no Brasil com mais de 3 milhões de arrecadação só no primeiro fim de semana de exibição. A jovem abocanhou vários prêmios voltados ao público adolescente nos EUA em 2009, como o "MTV Movie Awards", o "Teen Choice Awards" e está indicada ao "Digital Spy movie awards" - todos como melhor atriz. O segredo da californiana talvez esteja na precoce maturidade com que interpreta seus personagens; ok, ela pode ser a atual "musa-teen" mas está muito distante do modo de agir e de pensar de um adolescente. Merece destaque sua bela atuação no filme "Cake eaters" (2007) - "Doces encontros" , no Brasil - em que interpreta uma deficiente física em busca de sua primeira relação sexual. Depois de atuar na segunda parte da série "Crepúsculo" - com lançamento previsto para novembro - a atriz fará o papel de uma roqueira na película "Runnaway", onde aparecerá nua pela primeira vez na telona. Kristen Stewart é uma das mais promissoras atrizes do atual cenário Hollywoodiano.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Cinema : Série Paul Morrissey (2) - "Trash"


Um apartamento qualquer em Nova Iorque - uma dançarina insinua uma felação em um junky, a câmera abusa dos planos-detalhe da bunda do rapaz e a conversa gira em torno de nada. Ela se desnuda e baila para ele, mas o cara não quer sexo - só heroína. Outro plano sobre a bunda do indivíduo, mais uma tentativa de consumar a cópula, outra conversa sem sentido. Fim de cena. Assim começa “Trash”, filme de Paul Morrissey produzido por Andy Warhol lançado pela Factory em 1970. Joe Dallesandro interpreta “Joe”, - o junky - e Holly Woodlawn interpreta a si mesma, um travesti afundado nas drogas que vive num apartamento repleto de lixo. Lixo que ela recorre todos os dias para mobiliar a casa, lixo que preenche o vazio e atenua o desespero dos dois. “Haverá guerra?” pergunta uma prostituta, “ que importa?” responde Joe. E assim segue pelas ruas de Nova Iorque em busca de outro “shot”. O repertório de personagens freaks é infinito; os diálogos são longos e em certos momentos inacreditáveis. Destaque para a atriz e suicida Andréa Feldman – que interpretaria a mesma esquizofrênica em “Heat” (1972) – como uma alucinada menina bem-nascida em busca de ácido que despeja fluxos verbais aleatórios e histéricos. Andréa se mataria um pouco antes da estréia de “Heat” mas isso é outra história. Lou Reed imortalizou em música e verso esses dois personagens em “Walk on the wild side”. A letra retrata exatamente o universo fílmico/real de Joe Dallesandro e Holly Woodlawn. Ele, garoto de programa e habituè do underground Nova Iorquino, figurou em um casting de Morrissey para Factory e daí protagonizou todos os filmes do diretor tornando-se um ícono gay; ela, nascida Haroldo Santiago Rodriguez, “fugiu” aos 15 anos de Miami para Nova Iorque e sua saga é descrita na canção do legendário músico nova-iorquino. O filme valeu à atriz uma campanha do renomado diretor George Cukor para uma indicação ao Oscar em 1970. Nessa época o sonho não só tinha acabado como havia virado lixo.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Cotidiano - "A morte de Brian Jones, 40 anos depois".


Ele foi o líder e fundador da maior banda de rock and roll de todos tempos. No início dos anos 60, a imagem de um grupo chamado The Rolling Stones, correspondia ao carisma e ao talento de Brian Jones. Sua morte - ocorrida no dia 3 de junho de 1969 - ainda está rodeada de mistérios: oficialmente Brian morreu afogado na piscina de sua mansão em Cotchford Farm, em Sussex. O inquérito policial concluiu que o guitarrista sofreu uma morte acidental já que era asmático e resolveu nadar à noite - algo nada recomendável para pessoas com essa enfermidade. Pesava o fato de que Brian era para época o que Amy Winehouse representa hoje aos diários sensacionalistas britânicos: um viciado com alguns milhões de dólares. O caso é que 40 anos depois, a polícia local resolveu reabrir o inquérito. Duas testemunhas que se encontravam na casa da vítima na noite de sua morte, revelaram que Brian e um dos seus empregados - Frank Thorogood - haviam discutido: ambos estavam dentro da piscina e o músico foi visto inconsciente logo depois. A versão oficial da morte do guitarrista dos Rolling Stones nunca convenceu a opinião pública. Estava claro que para a conservadora sociedade Inglesa - assustada com as trangressões dos jovens dos anos 60 - era conveniente atribuir a morte de Brian ao abuso de drogas. O problema era que o laudo da necropsia apontou que o músico havia consumido apenas 3 copos de cerveja. A relutância da polícia de Sussex em reabrir o inquérito demorou 40 anos. O principal suspeito, Frank Thorogood, morreu em 94 sem se pronunciar sobre o caso. A retomada da investigação se deve ao trabalho do jornalista Scott Jones; há mais de 4 anos que Scott pesquisa todos os detalhes envolvendo a trágica noite de 3 de julho de 1969. O jornal "The Mail on sunday" comprou a briga e nesse momento a polícia de Sussex destacou um agente para revisar as 600 páginas documentadas pelo jornalista.
Esse blog opina que Brian foi assassinado e seu assassino está morto. Sua reputação como um grande músico ficará para sempre. O que pensa a sociedade britânica sobre ele, é passado.

domingo, 30 de agosto de 2009

Literatura - "Noir" (2) - Dashiell Hammett


Antes dele - na literatura policial - todos os detetives eram dotados de um “sexto sentido” e as soluções para os casos de assassinatos dependiam de pistas mínimas que despertavam “o gênio intuitivo”do investigador. Antes dele, o principal objetivo da narrativa policial era a resolução do caso e ponto final ; e geralmente a culpa era do mordomo. Dashiell Hammett trabalhou como detetive em uma das principais agências norte-americanas na década de 20 e depois de vários bicos como escritor de publicidade decidiu optar pela carreira literária. Sentia a necessidade de dotar à narrativa policial elementos realistas do processo de investigação e também – e por que não? – revelar o lado “b” da sociedade americana. Foi o inventor do gênero “Noir” onde detetives durões circulavam pelos ambientes mais cosmopolitas e sujos de São Francisco e Los Angeles, onde a corrupção era a ordem do dia em plena lei seca. A crescente complexidade delitiva em uma América afundada na “Depressão” era um material e tanto e Hammett não o desperdiçou. No começo dos anos 20 a ficção policial tinha grande entrada no público americano ao lado das novelas de aventura devido o surgimento das revistas “pulp”; a baixa qualidade do papel e o preço acessível faziam dessas edições êxitos seguros no mercado. Era o típico “ler e jogar fora”. Dashiell começou publicando seus contos nessas revistas até ser convidado para escrever na “Black Mask”, a mais prestigiada de todas. Logo se percebeu que em sua narrativa havia algo mais; o fato de haver trabalhado como detetive lhe proporcionou um código moral, técnicas de observação e uma familiaridade com os tipos menos recomendáveis que impregnou sua literatura de um realismo até então inexistente no gênero; seus diálogos rápidos e curtos e a breve descrição de cenas de perseguição misturadas com doses de cinismo e violência, serviriam para o cinema feito na década de 30. A imagem do detetive de cachimbo, sentado comodamente numa poltrona em sua vasta biblioteca, estava morta.


segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Literatura - "Noir"



Estimados amigos, antes de iniciar a série sobre Paul Morrissey , me deu uma insana vontade de falar sobre a literatura americana, especialmente o “policial noir”.
Explico: ao reler “Squeezy play” – primeiro livro de Paul Auster sob o pseudônimo de Paul Benjamin – mergulhei fundo naquela época dos anos pós - depressão americana. Foi difícil não me identificar com os decadentes personagens, os ambientes enfumaçados , no jazz, no álcool e na eterna solidão urbana em que viviam. Já me sentia atraído esteticamente pelos Filmes Noir – locações reais, sombras intermináveis, alto contraste claro-escuro, uso de ângulos inusitados – então me propus a descobrir sua literatura, as obras em que muitos desses filmes foram inspirados. Agregando às outras séries, começarei breves resenhas sobre os fundadores desse gênero; Raymond Chandler e Dashiell Hammet. Até!

Cinema : Série Paul Morrissey


Ao passar o fim de semana revendo alguns clássicos de John Casavettes, decidi escrever sobre o cinema independente Americano. Mais especificamente sobre outro mestre indie: Paul Morrissey. Esse nova-iorquino - formado em literatura pela Fordhan University -tinha apenas 27 anos quando Andy Warhol lhe convidou para projetos experimentais na sua recém inaugurada Factory. Com alguns curtas no currículo , o jovem Morrissey foi mais além em assumir os projetos cinematográficos do estúdio ;ele influenciou Warhol em sua forma de ver cinema. Morrissey também propôs a Factory que “batizasse” uma banda. Escolheu o Velvet Underground e incluiu a Nico como integrante. Ele administrou o Velvet e os projetos visuais de Warhol até 1967; filmes atribuídos ao mestre da Pop-art como “Chelsea Girls” (1966), “My Hustler” (1965), “Imitation of Crist” (1967) e “Bike boy” (1967) , tiveram a supervisão de Morrisey. A partir de “lonesomes cowboys” (1967), o jovem diretor escreveu e dirigiu todos os filmes apresentados por Warhol. É a partir daí que vamos comentar sobre algumas de suas películas. Paul Morrissey seria o equivalente cinematográfico do Velvet Underground; o que Lou Reed escrevia, Morrissey filmava. E filmava sexo. Sexo e heroína. Heroína e alienação. Personagens de uma Nova Iorque que contemplava o glamour e encontrava o lixo, o vício e a auto-destruição. Morrissey trabalhava com atores ocasionais, gente que interpretava na tela a sua própria vida e muitas vezes os nomes dos atores eram os mesmos dos personagens. A câmera hiper-realista serve de lente humana para uma realidade que está fora de controle e que por isso mesmo parece ficção. Os diálogos são largos e seguem sem interrupção o fluxo dos personagens; palavras do próprio Morrissey “Filmes são sobre personalidades.Quanto melhor a personalidade, melhor o filme”. No próximo capítulo, “Trash” de 1970.

domingo, 16 de agosto de 2009

"A grande novela americana"














Jack Kerouac foi fundamental na minha formação; aos 14 anos, quando li "On the road" pela primeira vez, o mundo ganhou uma "nova e alarmante dimensão" - termo emprestado de um romance de John Fante. Eis a minha surpresa ao deparar com a primeira obra de Kerouac em uma livraria do Centro do Rio: "The town and the city" foi lançado ano passado pela L & PM, com tradução de Edmundo Barreiros. Influenciado por Tom Wolf, o jovem Kerouac queria escrever a "grande novela americana", que abarcasse todos os sentimentos de uma nação tão complexa quanto simplória à primeira vista: do prosaico cotidiano das pequenas cidades do Norte ao cosmopolitismo delirante de Nova Iorque. A estória gira em torno dos Martin e seus oito filhos; dentre eles destaco três : Francis - o intelectual que rejeita o provincianismo de seu entorno, Peter - o "astro" do futebol da pequena Galloway que graças ao seu talento ganha uma bolsa para estudar na "big apple" e Joe - o herói aventureiro em busca das liberdades de uma América recém mergulhada em seus mitos cinematográficos. Foi a única tentativa do autor em escrever um romance "tradicional". Pontuado em ações narradas de forma clássica, o estilo de Kerouac se encontra muito distante do que se leria em "On the road", publicado 7 anos depois. Longe de se tornar a "grande novela americana" que pretendia escrever, "The town and the city" não deixa de ser obrigatório aos interessados no universo do maior escritor da geração Beat.


Trecho escolhido :


" E o que diz a chuva à noite em uma cidade pequena, o que a chuva tem a dizer? Quem caminha sob os galhos melancólicos e gotejantes escutando a chuva? Quem está ali nos respingos indistintos de milhões de agulhas de chuva, escutando a música grave da chuva à noite, chuva de setembro, tão escura e suave? Quem está ali escutando o ruído rouco e constante da chuva por toda a volta, pensando e escutando e esperando, no escuro lavado pela chuva e que cintila com a chuva da noite?"


"Autor em busca de editora"





















Depois de sete anos em Barcelona, voltei à cidade maravilhosa com um romance debaixo do braço! "Todo terrorista é sentimental" é o título provisório de uma novela que mistura ficção e memória - basicamente sobre os anos 90. A idéia era escrever sobre dois jovens que levam às últimas consequências sua insatifação com a classe política brasileira. Pode-se dizer que é um romance "de geração" e qualquer pessoa com mais de 30 anos viveu intensamente esses momentos ; o impeachment de Collor, o primeiro show de Chico Science no Circo Voador, as discussões sobre o teatro "jovem" carioca, a aposta ao Plano Real e o tetra-campeonato da canarinho. Quem nunca pensou em voz alta - diante de mais um escândalo de corrupção do governo - em mandar a classe política para o inferno? No livro a classe-média, cansada de realizar passeatas pela ética e pela paz, resolve fazer justiça com as próprias mãos.