domingo, 1 de julho de 2012

Cinema - "Slovenian girl" - Damjan Kozole


Jovem do interior recorre à prostituição na cidade grande para suprir suas necessidades econômicas: não parece lá muito um enredo original para as telas de cinema. Na primeira cena de "Slovenian Girl", a protagonista se envolve acidentalmente na morte de um figurão da política local - o homem enfarta na cama antes do coito ser consumado. O fato que  poderia conduzir o roteiro para uma trama melhor construída, acaba conduzindo ao espectador à saga de Alexandra na luta de ser manter  incógnita como garota de programa. Filme europeu. Narrativa lenta - com o vai-e-vem nas estações de trem entre a cidade da moça e Liublianna, capital da Eslovenia - repleta de planos-detalhe no rosto da protagonista com a cabeça apoiada no vidro da janela, mergulhada nos conflitos interno/externo. A única paisagem que ela contempla é a da própria incerteza de seu caminho. Ela tem um pai compreensivo, uma mãe problemática, um ex-amante obcecado pelo término da relação e alguns homens que conhecem seu segredo e vão chantageá-la até o final. Destaque para Nina Ivanisin - atriz principal - e pela trilha sonora de temática "looser-ballad"de rock americano ( com uma ótima versão de "Bobby Brown goes down"de Frank Zappa). Um prato cheio para os amantes do cinema europeu.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

A volta dos vinis - Charles Mingus - "Mingus ah um"





Charles Mingus foi um dos grandes gênios do jazz do século XX; conhecido pelo seu temperamento intempestivo - que lhe levou a alcunha de "The Angry Man of Jazz"- o baixista americano sabia e muito ser generoso.Enquanto lecionava na Los Angeles City College, nos idos de 1943, Mingus criou a ideia de "workshop" no jazz, um espaço livre onde alunos e mestres dialogavam musicalmente longe de posições hierárquicas. Essa ideia persiste até hoje em todas as escolas de música no mundo. Ao mudar-se para Nova Iorque em 1953, o músico expandiu esse conceito e organizou uma série de workshops no Putnam Central Club do Brooklyn, com shows realizados por nomes como Maz Roach, Telhonius Monk, Art Blakey e com ativa participação do público, na maioria formada por músicos, que opinavam "ao vivo"sobre os arranjos e executavam os temas com os instrumentos que traziam de casa. A ideia foi mais longe e se transformou em um álbum gravado nos dias 5 e 12 de maio de 1959 nos estúdios da Columbia em Nova Iorque. Acompanhado por músicos que haviam trabalhado com Mingus em discos anteriores - como Charlie Richmond na bateria, Horace Parlan no piano - a obra é pura fluidez sonora composta "mentalmente"por Mingus - havia pouquíssima partitura escrita antes das gravações. Destaque para "Self-portrait in three colors", feita especialmente para o primeiro filme de John Cassavetes. Um disco imperdível.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Cinema'- "Apenas uma noite" - Massy Tadjedin




Para ser simplório - sem ser leviano - resumo a ideia básica do filme "Apenas uma noite" na máxima de Oscar Wilde: "Pode-se resisitir a tudo, menos a tentação". Ou não.
Michael e Joanna Red formam um casal jovem e bem sucedido de Manhatan. O imobiliário do apartamento fala por eles: modernos, ricos e promissores. Em uma festa na empresa do marido, Joanna - interpretada por Keira Knightely - flagra olhares lascivos do mesmo para uma nova funcionária, personagem de Eva Mendes, quase irresistível. Os dois farão uma viagem de negócios no dia seguinte. Joanna lê essa curta viagem como uma iminente traição. O casal volta da festa, discute, ele jura que nunca prestou atenção na colega. Quis o destino que durante a ausência do marido, Joanna esbarrase nas ruas de Nova Iorque com um ex-namorado parisiense, de passagem pela cidade. O magnetismo entre os dois é latente. O francês a convida para jantar, ela aceita. Pronto. As sortes estão lançadas.
Durante quase uma hora o espectador acompanha, quadro a quadro, os rumos dos acontecimentos dessa noite: na viagem, Eva Mendes usa todos seus artifícios para seduzir Michael: em Manhatan, Joanna é acintosamente assediada pelo ex-namorado francês. O público se identifica com os desdobramentos psicológicos e comportamentais dos personagens, afinal, todos nós já passamos por isso. Não dá para contar o final. Assista e tire suas próprias conclusões. O filme é uma co-produção França/EUA, dirigido pelo estreante Massy Tadjedin.

Literatura - Leonard Cohen -"A brincadeira favorita"

 

Leonard Cohen escreveu dois romances ao longo de sua brilhante produção musical e poética nas últimas quatro décadas. Há quem considere Cohen “maior” do que Bob Dylan. Em 1959 – com apenas 24 anos – o compositor canadense partiu para Inglaterra e Grécia para escrever seu primeiro romance, “A brincadeira favorita”, publicado esse ano no Brasil pela editora Cosac Naify. Com o prefácio do escritor gaúcho Daniel Galera, a obra narra a infância e juventude de Lawrence Breavman – alter –ego do autor – judeu de um bairro nobre de Montreal.  Crítico mordaz de seus semelhantes e com propensões à carreira literária, Breavman  desfila  seu “veneno existencial” ao lado do fiel amigo Krantz – cúmplice de todas as horas e responsável pela cicatriz no rosto do amigo em uma brincadeira de infância; para o narrador “uma cicatriz é o que acontece quando a palavra se faz carne”. No início da juventude, Breavman se muda para Nova Iorque, onde uma vastíssima coleção de mulheres – em plena  ebulição comportamental da década de 60 – ocupará seu tempo e principalmente, sua obra. “A brincadeira favorita” atesta o gênio de Leonard Cohen, que o mundo  confirmaria alguns anos depois.
Trechos escolhidos : “Ele odiava os homens flutuando no sono dentro das grandes casas de pedra. Porque a vida deles era ordenada e seus quartos, arrumados. Porque acordavam toda manhã e iam para os empregos públicos.Porque não dinamitariam as fábricas nem fariam orgias diante de uma fogueira.”
                                “Shell sentia um afeto genuíno por ele. Precisava recorrer a essa expressão ao avaliar seus sentimentos. Isso a deixava mal, pois não queria dedicar a vida a um afeto genuíno. Não era o tipo de tranqüilidade que queria. A elegância de um casal dançando era notável apenas porque a graça advinha de um doce conflito carnal. Do contrário seria um teatro de bonecos, algo hediondo. Começou a conceber a paz como consequencia da desgraça".

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Cinema - "Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios"- Beto Brant e Renato Ciasca

  
Sexto longa-metragem do diretor Beto Brant, "Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios" narra o trágico triângulo amoroso vivido por um fotógrafo, uma ex-viciada e seu marido - pastor comprometido com as causas indígenas no interior do Brasil. Camila Pitanga interpreta a adúltera, dividida entre o amor carnal sentido por Cauby e os sentimentos nobres por Ernani, homem mais velho que lhe livrou da prostituição. Baseado no livro de Marçal Aquino, o filme mostra Camila Pitanga em sua melhor atuação no cinema, uma personagem que ama demais, deseja demais e se drogou demais. Beto Brant tem o mérito de explorar todo o potencial erótico da atriz sem cair na vulgaridade, cada tórrida cena filmada é necessária
para incluir o espectador no cárcere afetivo vivido pelos dois amantes.
Outro ponto alto da narrativa é a visão quase documental sobre o cotidiano dos moradores da região, mergulhada em pobreza e explorada economicamente pelos madereiros; o filme sugere que em ambos núcleos, o social e amoroso, algo vai explodir. Renato Ciasca divide com Beto Brant o roteiro e direção.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A volta dos Vinis(12)- PJ Harvey & John Parish - "A woman a man walked by"


PJ harvey e John Parish retomam uma antiga parceria profícua: o músico britânico participou de seis albúns da cantora, além de atuar como músico de sua banda entre 1994 e 1999. "A woman a man walked by" traz a mesma Polly de sempre, perfeita ao navegar em um tema contínuo em sua carreira: a perda. Seja da mãe pelo filho morto em "The chair" ou de uma catástrofe emocional anunciada em "leaving California", onde canta: "California killed me/ I think it's time to leave/ I told no one I'd stay". Em "16, 15,14", duas crianças brincam de esconde-esconde, o sol se põe e nenhuma delas tem motivos para sorrir.
"A woman a man walked by" traz uma sonoridade sombria, avessa ao sol californiano e de acordo com as nuvens peremptórias das paisagens inglesas - as origens da pálida PJ Harvey. Músicas com acordes menores, riffs melancólicos repetidos a exaustão. John Parish é responsável pelas composições, Polly escreveu todas as letras. No formato vinil, com a capa de papel e uma enigmática e instigante foto da dupla estampada, segue um encarte com as letras.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Cinema - "Roleta chinesa" - Fassbinder




Filme realizado para a TV em 1976, “A roleta chinesa” também poderia ser chamada de “Adultério à alemã”; Fassbinder desfila toda a hipocrisia da classe burguesa ao retratar um matrimonio que coincide com seus respectivos amantes na velha mansão de veraneio da família. O encontro foi secretamente planejado pela filha do casal . A inusitada situação não provocaria danos morais aos envolvidos se a própria filha não resolvesse estar presente.
Durante a estadia, a jovem propõe a todos jogar roleta chinesa – uma espécie de jogo da verdade, em que um grupo tenta adivinhar com perguntas de caráter simbólico, a identidade de uma pessoa escolhida. Então se desenrola toda a tensão emocional camuflada no falso moralismo burguês e na necessidade de se manter as convenções sociais. Com uma fotografia estilizada e a câmera com movimentos deslizantes que desnudam cada personagem, a película confirma a maturidade de Fassbinder como diretor. Destaque para o diálogo entre o marido e o amante da esposa; “Você a ama?” – pergunta o rapaz - “Estou acostumado a ela..” – responde o esposo. “ Estar acostumado a uma pessoa e viver com ela, também não é amor?” – Conclui o amante.
Sábio Fassbinder.

Literatura Noir (6) - Raymond Chandler "Amor e morte em Poodle Springs"




Raymond Chandler não viveu para terminar sua ultima novela: “Amor e morte em Poodle Springs” permaneceu na gaveta de seus herdeiros por 30 anos, até ser lançada em 1989. A obra foi acabada pelo celebrado autor Robert Parker, um dos grandes estudiosos, admiradores e discípulos de Chandler. Escrita em 1959, o livro não possui a mesma grandiosidade de “O sono eterno” e “O longo adeus” – esse, considerado um dos maiores romances da literatura americana do século XX.
É a última aparição do mítico detetive Philip Marlowe, agora devidamente casado com uma milionária californiana e instalado em uma cinematográfica mansão nos arredores de Hollywood. O conflito interno de Marlowe por ter como esposa uma mulher mergulhada em dinheiro acompanha toda a narrativa. Entre diálogos simples e diretos, ela insiste em convencê-lo a deixar seu escritório e o detetive – cínico como de costume – rejeita a idéia em nome do orgulho e da opção profissional que fez. Em uma tarde, Marlowe recebe a visita de Lipshultz - um proprietário de casas noturnas metido em jogo e outras ações delitivas; alguém lhe deve 100 mil dólares e Marlowe é encarregado de saber o paradeiro do indivíduo. Ao longo da procura, o detetive se depara com dois cadáveres, mulheres semi-desnudas à beira de ataques de nervos e seguranças fiéis ao passado de ex-boxeadores. Ao melhor estilo Chandler.
Trecho escolhido: “Os bêbados são criaturas frágeis. Precisam ser levados como um copo muito cheio; é só entornar para qualquer lado, e eles derramam tudo. Eu os conhecia. Passara a metade da vida conversando com bêbados em bares como aquele".

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Cinema - "O palhaço" - Selton Mello


Segundo longa metragem de Selton Mello, "O palhaço" é um belo exemplo da continuidade da alta qualidade de produção que o cinema brasileiro vem desenvolvendo nos últimos dez anos. Selton é um dos melhores atores de sua geração, com mais de 30 anos de carreira e mostra parte desse aprendizado na direção e na coautoria do roteiro, também assinado por Marcelo Vindicatto.
Selton investe em uma proposta completamente distinta do seu primeiro filme como diretor; "Feliz natal", onde a carga dramática não oferece espaço ao humor e a cartilha realista de John Cassavettes é seguida a risca. "O palhaço" é um filme para rir, chorar, sair do cinema com a alma renovada e com a certeza de que o caminho a seguir por Selton ainda nos brindará com boas surpresas.
A escolha certeira da forma, elenco e na condução do roteiro é sentida logo nos primeiros planos do filme. Selton fez uma grande homenagem ao circo e também a aqueles que - fora dele - nos fizeram rir e esquecer um pouco da realidade lá fora: Ferrugem, Zé Bonitinho, Moacir Franco - entre outros - são alguns dos personagens que desfilam ao longo da película. A cena deste último, interpretando o "Delegado Justo" é uma das que vão se eternizar no cinema brasileiro.
O enredo é simples; uma trupe de circo viaja pelo interior do país; em cada cidade, um acontecimento, seja cômico ou não, que desemboca nas dúvidas e inquietações dos artistas e suas opções existenciais. Uma delas é fio condutor da história; o palhaço, personagem de Selton; filho do dono do Circo (interpretado por Paulo José), ele não sabe se essa é realmente a sua vocação, ou uma velada imposição do pai. Tudo se resolve no final.
Destaque para a trilha sonora de Plínio Profeta, inspirada em instrumentos e sonoridades da música balcânica e do nordeste brasileiro.

Literatura - "Hollywood"- Charles Bukowski



Bukowski sempre foi mais reconhecido na Europa do que nos Estados Unidos - país em que seus pais emigraram quando o escritor tinha apenas dois anos. Trabalhou com os mais variados ofícios até conseguir uma vaga na Empresa dos Correios de Los Angeles - cidade em que viveu por toda vida, geralmente frequentando os becos mais sórdidos, onde conheceu os personagens que permearam toda sua obra: os alcoólatras.
Bukowski viveu, bebeu e morreu em Los Angeles. Mas escreveu livros. Quarenta e cinco no total, entre prosa e poesia. A América nunca lhe dera o devido reconhecimento, talvez por medo de se reconhecer a si própria nos textos do autor; textos que externam a condição do homem americano disperso na premissa de que o mundo se divide entre "Losers X Winners".
Ele, Bukowski, venceu. Ou não teria seus livros traduzidos para dezenas de idiomas. É um paradoxo? Pode ser.
Aos 64 anos, o escritor recebeu o convite para criar um argumento de um filme a pedidos de um diretor francês; nunca escrevera nada além de contos, romance e poesia. À princípio a ideia lhe desagrada, Bukowski detestava cinema e ainda mais a indústria hollywoodiana. Mas a grana é boa e ele aceita.
"Hollywood" foi escrito em 1989 e narra todo o périplo do autor em criar o argumento, conviver com astros do cinema e as notórias dificuldades de se produzir um filme. Está tudo lá: produtores sem dinheiro, atrizes em crise profissional, diretores suicidas, magnatas endividados e lógico, muito álcool para suportar tantos egos e "personalidades". Um prato cheio para um especialista em diálogos rápidos, irônicos, certeiros.
Um livro indispensável de Bukowski, comparado pela crítica européia à Céline, Hemingway e Henri Muller.
Trechos escolhidos: "Eu morava num conjunto de casas populares na Carlton Way, perto da Western. Tinha cinquenta e oito anos e ainda tentava ser escritor profissional e vencer na vida apenas com a máquina de escrever. Iniciara esse curioso meio de vida aos cinquenta anos. Mas não se pode viver sempre escrevendo, e havia muito espaço a preencher. Eu o preenchia com uísque, cerveja e mulheres. Acabei me enchendo da maioria das mulheres e me econcentrei no uísque e na cerveja."
"O grande momento chegou. Pus a máquina de escrever em cima da mesa, encaixei uma folha de papel e bati nas teclas. A máquina ainda funcionava. E havia bastante espaço para um cinzeiro, o rádio e a garrafa. Não deixem ninguém convecê-los de outra coisa. A vida começa aos 65".